Sábado, 13 de Agosto de 2016

A HISTÓRIA E O VALOR DO CEMITÉRIO DA LAPA

1.Cemitério da Lapa.JPG

Em 1833, o dramático Cerco do Porto e a subsequente epidemia de cólera rapidamente lotaram os locais ancestrais de enterramento, situados no interior das igrejas portuenses.

5.Cemitério da Lapa.JPGPerante este cenário, a Mesa da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa pediu a D. Pedro IV que autorizasse a construção de um cemitério privativo exterior à sua igreja.
Não se pretendia um mero terreno temporário para sepulturas: todo o processo indicia que, já em 1833, a Irmandade da Lapa pretendia um cemitério convenientemente murado, enobrecido com portal, com locais próprios para construção de monumentos. Por isso, pode considerar-se o Cemitério da Lapa como o mais antigo cemitério romântico criado em Portugal, mesmo não sendo público. A sua criação oficial foi, aliás, anterior ao decreto de 1835, que instituiu os cemitérios públicos. Porém, como situação de transição, foi necessário construir um cemitério interino, por detrás da capela-mor da Igreja da Lapa.

2.Cemitério da Lapa.JPG

O Cemitério da Lapa propriamente dito, só foi oficialmente benzido no Verão de 1838.
Os cemitérios românticos foram concebidos como espaços arruados e ajardinados, com belos monumentos (derradeiros símbolos de saudade dos entes queridos), locais de meditação na fugacidade da vida, dentro da mentalidade de então.
Actualmente, os mais importantes cemitérios europeus do século XIX são encarados como museus. De facto, nestas “cidades dos mortos” em miniatura, os vários monumentos espelham, não só um passado de memórias familiares, como também o desejo de ostentação, as mentalidades e os símbolos de toda uma época.
Por outro lado, estas “galerias de ilustres”, são também repositórios de algumas das melhores obras de arte do período romântico, sobretudo em arquitectura, escultura e artes aplicadas (ferro e cerâmica).

 

 O Cemitério da Lapa é o mais importante “museu da morte” do Norte de Portugal.
Aqui foram erigidos alguns dos primeiros monumentos funerários românticos de Portugal, a partir de 1839.
Durante décadas, estes monumentos –os mais faustosos da cidade do Porto- foram fonte de inspiração para todos os outros cemitérios do Norte do país.
De facto, a Lapa era o cemitério da elite portuense.
Porém, foi tal a quantidade de notáveis que ali pretendiam ter um jazigo próprio que o cemitério se tornou, rapidamente, demasiado pequeno.

4.Cemitério da Lapa.JPG

 O primitivo cemitério, que correspondia às actuais secções de 1 a 8 e à secção lateral Poente das capelas monumentais, foi ampliado apenas duas décadas depois de ter sido aberto! Foi construída uma outra secção lateral para as capelas monumentais, a Nascente, bem como uma nova divisão, a cota mais elevada (a divisão 2, dividida nas secções 11 e 12).
Mas, mesmo assim, em poucos anos estas novas secções ficaram preenchidas de monumentos.
Duas décadas depois, novamente necessário alargar o Cemitério da Lapa, para Sul (as actuais secções 9 e 10) e para Poente (a divisão 3).
Em 1874, foram dadas como concluídas estas obras de ampliação e colocada a cruz que se encontra ao cimo da escadaria da entrada. A partir de então, o cemitério não pôde ser mais alargado: todo o terreno disponível da cerca da Lapa já tinha sido ocupado e esta estava encravada num pequeno quarteirão.

3.Cemitério da Lapa.JPG

 

 

publicado por amaroporto2 às 17:39

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Sábado, 9 de Novembro de 2013

ÉDEN TEATRO

O Éden Teatro, na rua de Alexandre Herculano (Porto), ficou ligado à história da chamada "Monarquia do Norte".

Aproveitando a instabilidade gerada pelo assassinato de Sidónio Pais, os monárquicos do Porto proclamaram a restauração da Monarquia a 19 de Janeiro de 1919, criando uma Junta Governativa, presidida por Paiva Couceiro. O corpo de voluntários responsável pela segurança pública instalou-se no Éden Teatro e era aqui que detinha e interrogava activistas e simpatizantes republicanos.

Ao fim de quase um mês – durante o qual os monárquicos do Norte dominaram a quase totalidade do Minho e Trás-os-Montes, e ainda parte das Beiras –, a revolta caiu a 13 de Fevereiro, com a entrada no Porto das tropas fiéis à República.

Tal como sucedeu com vários outros teatros da cidade, também o Éden passaria a cinema durante a década de 1930, acabando por ser demolido em 1948.

 

Através de:

https://www.facebook.com/PortoDesaparecido


publicado por amaroporto2 às 13:57

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Terça-feira, 17 de Setembro de 2013

"A Brasileira" nos Anos 50

 
 

O Porto nos anos cinquenta

 

Quando cheguei ao Porto para advogar, exactamente a meio do século XX, a Oposição ao Regime reunia-se no café A Brasileira, na Rua de Sá da Bandeira. Era essa, em linguagem de hoje, a sede da Oposição. Aí se reuniam, em simultâneo, opositores e jornalistas, coristas do Sá da Bandeira e jogadores e adeptos do Futebol Clube do Porto.

Importa ter em conta, antes de mais, que por esses anos, aqui no Porto, as figuras gradas da advocacia, da medicina ou do comércio alinhavam politicamente na oposição ao Regime.

Para essa situação tinha contribuído, em boa parte, a campanha para a Presidência da República do General Norton de Matos[1], que era do Norte e tivera aqui o seu maior acolhimento, numa manifestação grandiosa e bem reveladora do que era, já então, o ambiente oposicionista no Porto.

Os velhos republicanos, perante o que aqui fora tal campanha[2], tinham percebido, pela primeira vez, que uma parte substancial da população estava farta de Salazar. E a muitos portuenses o movimento dessas eleições (que tinham acompanhado ou testemunhado) tinha aberto os olhos para a situação. Uma boa parte deles, das camadas mais influentes, estava esclarecida.

No meio do marasmo geral, esse Porto, desperto, vivia no desdém pelo Regime e no alerta da expectativa. Orgulhava-se do seu passado e tinha-se em boa conta. Sentindo-se preso, agitava-se. Morto por mudanças, conspirava. Foi o Porto que vim encontrar nos anos cinquenta. É ele, personagem colectiva, o protagonista desta história.

 


 

O Café A Brasileira

 

Nos anos cinquenta do século passado, A Brasileira era pois um significativo cenário desse Porto que, no meu meio, vim encontrar.

Conhecidíssimo ponto de encontro de muitos portuenses, pela sua centralidade, era espaço em que pontificavam encanecidas figuras da 1ª República e ainda sede de uma mais diversa oposição ao salazarismo. Era também, à época, sala de visitas da cidade: não havia estrangeiro que nos aparecesse, viesse donde viesse, que não fosse lá levado para um café. Pelo seu papel, o que era não cabe numa nota como esta minha, de boa memória é – e também mal o conceberia, por muito que nela me detivesse, a ligeireza apressada deste nosso tempo de agora. Tempo que não é de demoras em cafés, de tertúlias, de ideias e planos, longas conversas de amigos.

Foi lá, n’ A Brasileira, que conheci essas figuras da 1ª República. Pelo carácter pessoal, algumas não podem ser reduzidas a traços gerais, representativos do género. Dessas que se salientavam, como personalidades com estilo próprio e a aura do seu passado, vem-me de imediato à mente o coronel Hélder Ribeiro, Ministro da Guerra na 1ª República. Era um homem discreto, de extrema modéstia, e respeitado, quase até ao exagero, por todos. Ao lado, na Primus, tinha ele um colega, ministro que também da 1ª República: o Dr. Eduardo Santos Silva – homem que toda a gente igualmente respeitava e na mesma medida, isto é, muitíssimo.

Tinha lá igualmente assento uma outra espécie de figuras do passado: as facilmente identificáveis como “tipo”, pelos traços que ostentavam. Era a espécie que encarnava o lado negativo da 1ª República, também representado nessa casa de todos que era A Brasileira. Representavam-nos dois tipos: o cacique e o bombista.

O cacique distinguia-se bem: homem emproado, de chapéu revirado; membro do Partido Democrático, não lhe fora difícil sentir-se importante, pelo menos na sua terra, onde livrava os mancebos da tropa e resolvia as questões da vizinhança, como se juiz fosse. Tinha como missão política conseguir que nas eleições o Partido Democrático ganhasse, o que não era difícil[3], tendo em conta o número limitado de votantes. Dos que votavam[4], o cacique esforçava-se por que votassem consigo, do seu lado; para isso, bastava controlar os votos que contavam, no domínio que lhe cabia – a sua terra.

A completar esse quadro do passado, parava ainda n’ A Brasileira o bombista. Vinha daqueles grupos secretos em que a República foi fértil, gerando contínuas convulsões sociais. Figura muito típica, com um aspecto curioso[5], o bombista era um tipo corcovado que ia dormitando. Quase sempre dormitava. Nos momentos em que acordava, contava, enchendo-se de glória, o seu passado. Lembrava, a quem o quisesse ouvir, as bombas que, a mando, ia deitar. Em episódios que eram, mutatis mutandis, como o que se segue. Diziam-lhe: Vais à Régua e deitas uma bomba, assim e assado. E ele lá ia à Régua (ou a Lamego, ou aonde fosse para ir, segundo o que lhe era encomendado), deitava a bomba no sítio indicado e regressava ao Porto com o dever cumprido.

Finalmente, frequentava A Brasileira uma nova geração de opositores. Feita, em primeira linha, pelas figuras da 1ª República, a oposição ao salazarismo nunca esmoreceu. Nem a esperança de que em breve o Regime caísse (alimentada por umas vagas notícias da rádio estrangeira contra Salazar ou por uns vagos escândalos do regime que alimentavam, por sua vez, outros tantos boatos).

Esses velhos republicanos que conheci ensinaram-nos a nós, jovens, que nunca se deve perder a fé no futuro em que se acredita. Era comovedor ver como acreditavam que tal futuro estava para breve – e como pouco bastava para sustentar essa crença. Aos seus olhos, uma vaga notícia da BBC, uma linha que fosse de alguém que apoiava a Democracia em Portugal ou censurava algum acontecimento ou aspecto da situação em que se vivia, era sinal certo de que esta estava para cair. Sublinhavam sempre, com fé inabalável, que o ressurgimento da República estava para breve (e estava – só demorou mais de vinte anos!). Essa fé era também alimentada por quaisquer pequenas dissensões no Regime, que fariam pressupor o seu fim, ou pela crença, que vinha do fim da II Guerra Mundial, de que as democracias vitoriosas iriam acabar com as ditaduras que haviam sobrevivido a essa guerra (quando, ao contrário, os países democráticos passaram a apoiar de Portugal e de Espanha no bloco que se constituiu contra o comunismo do Leste).

Os mesmos republicanos não deixavam de comemorar, todos os anos, o 5 de Outubro (no Coliseu do Porto) e de promover uma manifestação ao cemitério do Prado do Repouso, no 31 de Janeiro[6]. Durante o longo consulado salazarista, tanto essas sessões no Coliseu como as romagens ao “Prado do Repouso” (onde foram sepultados os heróis dessa revolta) sempre tiveram, na primeira linha, essas figuras do Porto.

No que me toca, o conhecimento desses representantes da 1ª República fez que eu olhasse para ela sem a endeusar e sem a diabolizar. Endeusavam-na os velhos republicanos, que sonhavam repeti-la. E diabolizava-a o Regime, com uma parte da população que a vivera.

O grupo de republicanos tinha a acompanhá-lo, n’ A Brasileira, jornalistas do Porto. De resto, os jornalistas estavam habitualmente com a Oposição, convivendo com os oposicionistas, sentando-se à sua mesa; tal não significa, porém, que não prestassem serviços à Situação. Digo isto a propósito, por exemplo, de um jornalista de que me lembro, homem amável, que acendia cigarros sobre cigarros, e que um dia se desculpou assim: Hoje vou sentar-me ali ao lado, que tenho de escrever um discurso para o Presidente da Câmara ler logo, numa inauguração

A Brasileira era um mundo, um mundo notável. Com muitos actores: as actrizes do Sá da Bandeira, os do futebol, os da Oposição ao Regime, os artistas, os jornalistas… Fechava pela meia-noite, muitas vezes depois. Ora, à meia-noite, nesse tempo, andava-se na rua como de dia. O serão, em vez de se passar em frente da televisão, passava-se lá. Vantajosamente.

Que estas poucas linhas tenham dado para fazer uma ideia do que era esse mundo – e, por essa via, imaginar como então fervilhava de vida, de vida política, o nosso Porto.

 

O nosso grupo

 

N’ A Brasileira, como acima dizia, todos os dias se sonhava com o fim do salazarismo, que estava sempre iminente. O que alimentava o sonho era a Europa democrática – e a esperança de que viesse em nosso auxílio e derrubasse um Salazar que nós, de dentro, não tínhamos como derrubar.

Foi nesse ambiente que um grupo de oposicionistas, reunindo gente que se conhecia e se foi encontrando, ao longo desses anos, se foi tornando mais próximo, por um lado, enquanto a sua base, por outro, se ia alargando a outros.

Era no café que se gizavam movimentos de oposição ao Regime, possíveis campanhas eleitorais ou intervenções no Tribunal Plenário (onde opositores, sobretudo os comunistas, eram sucessivamente julgados e condenados).

E todos esses movimentos de oposição ao Regime tinham a colaboração de jornalistas, nossos companheiros em todas as campanhas, que procuravam traduzir-nos a sua solidariedade com escassas notas que nos jornais escapavam à censura.

Em termos pessoais, as memórias que d’ A Brasileira guardo são inúmeras. Foi lá que fui contactado para intervir nos processos do Tribunal Plenário, na defesa de adversários do Regime, e para ser candidato a deputado pela Oposição.

 

Manuel Coelho dos Santos, Quando o Porto Tinha Voz

Ver mais:

http://amaroporto2.blogs.sapo.pt/15975.html

 

 

NOTAS

[1] Em 1949. Fora um marco. As eleições tinham sido a 18/02/1949.

[2] Cujo apogeu, em campo aberto, tinha sido, depois do comício no campo de Salgueiros, a 09/01, a manifestação na Fonte da Moura, a 23/01, com mais de cem mil pessoas a encherem o centro hípico. Note-se que a partir daí, e por causa disso, nunca mais seriam permitidas sessões ao ar livre, a céu aberto.   

[3] Como não foi, que as ganhou todas.

[4] Lembre-se que apenas dos alfabetizados (cerca de 25%; ao fim de dez anos de democracia, a percentagem passara para 30%).

[5] Atracção das minhas filhas pequenas, quando à noite a minha mulher me ia buscar à Brasileira - encarregadas de me vir retirar daquele convívio - era a ternura do bombista que as encantava.

[6] Data que o Porto recordava com orgulho, por ter sido daqui que surgira a primeira revolta contra a Monarquia. Das idas ao cemitério, lembro-me de a polícia nos correr com uma água colorida, quando dávamos vivas à Liberdade e à Democracia. O 31 de Janeiro era comemorado com a ida ao cemitério e uma sessão no Coliseu (única abertura dada pelo Regime).

 

 

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Domingo, 19 de Agosto de 2012

Betão e Poluição

 
A 20 de Março de 2008, publiquei neste blogue o seguinte lamento, acerca do corte duma árvore da minha rua:

 

http://amaroporto2.blogs.sapo.pt/14462.html

 

Agora, nos dias 16 e 17 de Agosto de 2012, o que restava das árvores, em frente à minha casa, foi à vida.

As árvores e a saída duma rua. Em nome de quê? Para quê? Para semear betão, para construir dois andares de um edifício qualquer destinado a comércio.

Não há palavras...

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
publicado por amaroporto2 às 15:58

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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012

O burburinho de mil vidas

 
 

Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930. E eu, quando uns quatro anos depois, comecei a observar conscientemente a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.

[…]

Num encanto que permanecerá, maravilho-me com o panorama do rio e da cidade.

Nem a baía de Guanabara, nem Nova Iorque vista do avião ao anoitecer, nenhum Paris, nenhuma Roma, a Amazónia, as Pirâmides, o deserto, nada disso que viria depois e é grandioso, me deixou uma impressão tão viva e duradoura como a da paisagem que se avistava das janelas da casa onde nasci.

Mais tarde dei-me conta de que a razão profunda do meu fascínio não era tanto a inegável beleza da vista, mas o facto de dali, como defronte dum gigantesco ecrã tridimensional, poder testemunhar do burburinho de mil vidas.

Para oriente, os meus olhos alcançavam até ao longe dos altos de Campanhã, as Fontainhas e, espreitando por entre o arco da ponte, as entradas dos dois túneis do caminho de ferro. Na linha superior era um constante passar de comboios. Na outra, muitos metros abaixo, apenas de vez em quando aparecia uma locomotiva a puxar lentamente vagões de mercadorias que desapareciam sob a cidade, a caminho do cais da Alfândega.

Na ponte de cima era o vaivém de eléctricos amarelos, camionetas de carreira, camiões, automóveis, grupos de gente.

Sem eléctricos e de curvas apertadas a cada extremo, a ponte de baixo era mais sossegada, com o seu trânsito de carrejões, vareiras, leiteiras e padeiras, carvoeiros, carros de bois.

De longe a longe um camião com pipas, um táxi com pressa, mas buzinar não adiantava, porque quem ia pesado de carregos caminhava pelo meio do tabuleiro, sem ceder um palmo.

Eu via os carros, via as trouxas. Via mais longe as mulheres da carqueja, curvadas sob molhos incríveis, subindo dos barcos “rabelos” para o cais e, Calçada da Corticeira acima, aos rodeios, com uma lentidão e persistência de insectos. A Calçada da Corticeira, ruim de subir, ruim de descer, tão íngreme que parecia um traço quase vertical na encosta.

Nos Guindais a muralha ligava-se por degraus ao rio e aí atracavam às dezenas “rabelos” e “valboeiros”, os homens do leme correndo descalços sobre a gaiola, os outros atentos ao manejar dos remos e do cordame das velas, na manobra perigosa em que simultaneamente tinham de lutar contra as forças contrárias do vento e da água.

Por vezes acontecia ser o barco apanhado num redemoinho. Ouviam-se gritos. Pessoas corriam pela ponte e pelos cais, pressentindo a tragédia, desatinadas por não poderem acudir. As velas caíam num ápice. Dois ou três homens subiam ágeis a ajudar o timoneiro, juntavam o seu peso ao dele e, carregando na ponta, conseguiam levantar da água a trave do leme. Assim evitavam que a força do rodopiar o quebrasse, mas o perigo continuava igual.

Ao longo dos cais mulheres caíam de joelhos, homens desbarretavam-se em oração, pedindo misericórdia, implorando a Deus para que se apiedasse daqueles pobres em tamanho perigo. À deriva numa corrente tão forte, só a força divina impediria que o barco se fosse espatifar contra um molhe ou o casco de ferro dalgum cargueiro. E milagre, fleugma, ou ciência das coisas do rio, na fracção de momento em que o barco parecia hesitar na sua louca corrida, o leme caía na água, as velas levantavam-se como por si só, o corpo retesado dos homens compensava a força que fazia curvar os remos na travagem. Besta domada, obediente à vontade de quem a mandava, a embarcação ia aos poucos ganhando a margem, até que alguém atirava um cabo e finalmente a prendiam ao cais.

As pessoas ficavam ainda um momento a olhar, a assegurar-se de que já não havia perigo, a dizer-se palavras de conforto. Passada a aflição desfaziam-se os grupos e carregando o seu fardo ia cada um ao seu destino.

Nas casas da Ribeira, estendidas pelo muro, tudo era quietude. Por sobre elas, nos jardins do convento dos Grilos, passeavam em longas filas os seminaristas vestidos de negro. Mais acima, pesados e grandes, o palácio do bispo e a sé. Mas entre as casas e o rio os meus olhos não chegavam para abarcar o tumulto de tanto povo. Uns em correrias desencontradas, outros atarefados na descarga dos barcos, lavadeiras ajoelhadas a esfregar a roupa no cais, ou batendo-a sem dó contra a cantaria dos degraus.
 
 

Devido à curva do rio, do lado do Porto o panorama terminava nos arredores do Palácio de Cristal, mas o resto conhecia-a eu tão bem que me bastava querer e “via” a barra, o mar, os estaleiros do Lordelo, as traineiras ancoradas defronte da Afurada.

Na margem sul, a nossa, a trajectória dos olhos era breve: começava na igreja redonda da Serra do Pilar, descia para os telhados dos armazéns de vinho, o convento das freiras, e ia parar nas árvores seculares da quinta de Campo Belo.

Mas de tudo o que eu via da janela, o que mais me encantava era o rio. Então a barra ainda era funda, entravam por ela enormes cargueiros, tantos que às vezes ficavam atracados dois a dois, desde o Lordelo até à ponte. E porque na margem de Gaia não havia cais, a carga era morosa e pitoresca.

As pipas, os fardos, os caixotes, rolavam pelas pranchas ou levavam-nos os homens da estiva à cabeça para as barcaças, que iam acostar aos navios. Os guinchos funcionavam a vapor e ao içar a mercadoria, ou quando a baixavam para os porões, saía deles silvando um longo penacho de fumo.

Tudo era princípio, novidade. Pedagogo nato, o avô sussurrava-me os nomes das ruas, dos lugares, dos objectos, dos navios, dos países, ordenando e colorindo a realidade que eu ainda não podia interpretar. Quase por inteiro são suas as descrições das tragédias do rio, dos barcos a redemoinhar nas águas turbulentas, da violência dos ciclones.

A paisagem era o filme, ele o comentador, e para me agradar apressava-se de volta a casa depois do trabalho, eu à espera ao cimo das escadas, ansioso por acompanhar a continuação da história do mundo.

 

J. Rentes de Carvalho, Ernestina

publicado por amaroporto2 às 17:03

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

PORTO

 

Porto, 12 de Março de 1949 - Este Porto dá-me segurança! Depois das fragas da minha terra, é nele que me sinto mais protegido e livre. Em Lisboa ronda-me sempre o pressentimento de qualquer perigo iminente, que não sei se vem do Terreiro do Paço, se da Avenida da Liberdade. Aqui, pelo contrário, caminho de coração tranquilo. É uma superstição como as outras, evidentemente. O poder chega a toda a parte, e já não há canto no mundo onde um homem possa dizer que está a salvo. Contudo, certas premissas valem muito… Os maometanos acreditam no túmulo do Profeta; eu acredito na estátua de D. Pedro IV.

 

MIGUEL TORGA, Diário IV

 

 

publicado por amaroporto2 às 17:46

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

No 170º aniversário do nascimento de Antero de Quental

 

TENTANDA VIA

II


A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!

Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!

E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;

Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!

Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...

Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!

 

Antero de Quental

[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]

publicado por amaroporto2 às 09:48

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Sábado, 31 de Março de 2012

Porto Sentido

PORTO SENTIDO

 

Quem vem e atravessa o rio

Junto à serra do Pilar

Vê um velho casario

Que se estende até ao mar.

 

Quem te vê ao vir da ponte

És cascata são-joanina

Erigida sobre um monte

No meio da neblina.

 

Por ruelas e calçadas

Da Ribeira até à Foz

Por pedras sujas e gastas

E lampiões tristes e sós.

 

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

 

[refrão]

Ver-te assim abandonada

Nesse timbre pardacento

Nesse teu jeito fechado

De quem mói um sentimento.

 

E é sempre a primeira vez

Em cada regresso a casa

Rever-te nessa altivez

De milhafre ferido na asa.

 

Rui Veloso/Carlos Tê

 
 
publicado por amaroporto2 às 18:43

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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

O Porto há cem anos 1

 

 
publicado por amaroporto2 às 14:45

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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

A Cidade nos Livros

publicado por amaroporto2 às 10:24

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