TENTANDA VIA
II
A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!
Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!
Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!
E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;
Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!
Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...
Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!
Antero de Quental
[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]
PORTO SENTIDO
Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende até ao mar.
Quem te vê ao vir da ponte
És cascata são-joanina
Erigida sobre um monte
No meio da neblina.
Por ruelas e calçadas
Da Ribeira até à Foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós.
E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria
[refrão]
Ver-te assim abandonada
Nesse timbre pardacento
Nesse teu jeito fechado
De quem mói um sentimento.
E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre ferido na asa.
Rui Veloso/Carlos Tê
A BATERIA DE VITÓRIA
Germano Silva
A notícia saiu, em primeira mão, nas páginas do JN, pela pena da colega Carla Sofia Luz: “Miradouro da Vitória vendido a construtora”. Li e não acreditei. Que eu saiba aquele logradouro sempre foi do domínio público. Mas lembrei-me doutros sítios que, sendo também do domínio público, passaram do público para o privado, vá lá a gente saber por que vias e de que maneira. Estou a lembrar-me da Cerca das Cardosas, nas traseiras do edifício com o mesmo nome, agora transformado em hotel. Quem não se lembra das iscas, dos bolinhos de bacalhau e dos chispes que se serviam na adega do senhor Monteiro; também tinha lá sede a agência de viagens Armarter, agora, julgo eu, na Praça Guilherme Gomes Fernandes. Mas há mais: o Pátio do Bonjardim, nas traseiras do Palácio Atlântico; o Beco de S. Marçal. Curiosamente, com excepção da Cerca das Cardosas, todos os outros sítios continuam a figurar nos roteiros da cidade, mas não funcionam como lugares de utilidade pública. E agora foi a vez do Miradouro da Bateria da Vitória. É dele que hoje me proponho falar.
A actual igreja paroquial de Nossa Senhora da Vitória, depois de ter sido objecto de uma profunda remodelação, reabriu ao público em 1769. Era governador da cidade e célebre João de Almada e Melo (1703-1786) que, sensivelmente dez anos antes, havia criado a Junta das Obras Públicas, através da qual deu início a uma arrojada política de desenvolvimento urbanista do Porto. E foi dentro deste contexto que, em 1770, aquela Junta, “na conformidade das Reaes ordens de Sua Magestade Fidelissima, se determinou, em Junta, se fizesse huma praça no fraguedo por baixo da igreja de Nossa Senhora da Vitória desta cidade; assim para milhor formozura della, como para utilidade pública e bem comum dos seus moradores” (destacado meu).
As obras começaram de imediato, tendo a empreitada da nova praça sido arrematada pelo mestre pedreiro Henrique Ventura que deu a obra por concluída em 1772.
Antes, porém, houve necessidade de proceder a algumas expropriações. Assim, em 1770, a Junta das Obras Públicas comprou, a Jerónima Maria dos Santos e seu filho José Machado de Faria Pessoa, “hum pardieiro e terra que ele ocupa sito no fraguedo por baixo da igreja de Nossa Senhora da Vitória”. Houve outras expropriações. Por exemplo, em 1773, José Machado de Faria Portela vendeu “hum terreno do quintal (?) místico à mesma praça…” para que a obra pudesse continuar. O resultado deste trabalho é-nos revelado pelo padre Agostinho Rebelo da Costa, que escreveu em 1789: “…a espaçosa praça que está no alto do Monte da Vitória compõe-se de um elevado mirante rodeado de assentos de pedra lavrada com parapeitos da mesma. Dali descobre-se uma grande parte da cidade, o curso do rio Douro, viçosas campinas e dilatados bosques…”
Já no século XX, em 1908, um leitor da revista “O Tripeiro” que assinou A. Conceição, referindo-se ao miradouro da Vitória, perguntava se o terreno era camarário ou particular. Respondeu-lhe Eduardo Coquet P. de Queiroz, no número 10 daquela revista, que estava no início da sua publicação, da seguinte forma: “…sei, por o ouvir dizer a meu pai, que durante 48 anos foi empregado da Câmara, que tal lugar, antigamente chamado Bateria Vitória foi sempre público e, apenas, por causa de evitar cenas imorais que particularmente incomodavam os moradores da casa edificada no dito lugar, a Câmara Municipal, por contrato especial com o proprietário da referida casa consentiu a vedação que ainda hoje (1908) existe – mas sem o menor direito de propriedade” (destacado meu).
Recapitulando: o miradouro da Vitória foi construído entre 1770 e 1772 e o edifício entre 1780 e 1790. Neste edifício funcionou, entre 1855 e 1895, a Casa Bancária de Casaes e Filhos. Em 1953, albergou um Patronato. Depois, passaram por ali, já nos anos 90 do século XX, uma cromagem, uma tipografia e um encadernador.
Em 23 de Outubro de 1845, a Câmara do Porto, “querendo recordar e enobrecer os acontecimentos notáveis do Cerco”, deu ao miradouro em causa o nome de Largo da Bateria da Vitória. Ninguém, nenhuma entidade, dá o nome a uma coisa que não é sua.
Prove-nos agora (a nós portuenses) a Câmara Municipal, a agonizante Fundação da Zona Histórica ou o actual proprietário do imóvel (com documentos, claro) a quem pertence, de facto, o mirante, um dos sítios do Porto mais procurados pelos turistas que nos visitam. Como o actual presidente da Câmara gosta de dizer, é uma simples questão de rigor e, acrescento eu, de verdade para com os munícipes. Os documentos estão nos arquivos. É só ir consultar.
Um lugar com História
O Cerco
O Largo da Bateria da Vitória, como o próprio nome deixa antever, tem também um forte simbolismo histórico. Durante o Cerco do Porto (1832-1833), as tropas liberais instalaram naquele local uma bateria. A igreja paroquial viria a sofrer, por isso, graves danos. Tão graves que teve de encerrar por algum tempo. Em certa ocasião em que D. Pedro IV visitou aquela linha de defesa, os miguelistas de Gaia abriram fogo cerrado sobre o Porto e a vida do rei correu sério perigo. Foi disso avisado pelos seus adjuntos, mas recusou abandonar o local, acompanhando a par e passo todas as manobras que se realizavam de resposta ao ataque miguelista. A certa altura ouviu-se o sibilar duma bala e um soldado que se postara, ocasionalmente, diante do rei caiu morto no campo de batalha. Havia salvado a vida de D. Pedro IV.
Jornal de Notícias, in À Descoberta do Porto
[15 de Janeiro de 2012]
Coliseu do Porto:
70 anos comemorados com homenagem a Helena Sá e Costa
O Coliseu do Porto celebra hoje o 70.º aniversário com o mesmo programa artístico que inaugurou a sala, a 19 de Dezembro de 1941, tendo então como solista, ao piano, Helena Sá e Costa, que será homenageada.
Falecida a 8 de Janeiro de 2006, Helena Sá e Costa será recordada hoje com o descerramento de uma placa no átrio do Coliseu, cerimónia em que participará a sua irmã, a violoncelista Madalena Sá e Costa, com 94 anos. Segue-se, pelas 21:30, o concerto comemorativo da efeméride, interpretado pelo pianista Constantin Sandu e pela Orquestra ARTAVE (Orquestra Sinfónica da Escola Profissional Artística do Vale do Ave), sob a direcção do maestro Luís Machado.
Sob a direcção do maestro Pedro de Freitas Branco, Helena Sá e Costa foi a figura central do espectáculo que abriu o Coliseu do Porto, interpretando "A consagração da casa", uma das últimas obras de Beethoven, e o Concerto n.º 1, para piano e orquestra, de Mendelssohn. "Helena Sá e Costa tocou na inauguração, tocou nos 50 anos do Coliseu, nos 60 estava lá mas já não conseguia tocar e nos 70, infelizmente, já não está connosco, por isso entendemos que era altura de prestar homenagem a uma grande senhora da cidade, a uma grande pianista e sobretudo uma grande pedagoga", afirmou à Lusa José António Barros, presidente da Associação Amigos do Coliseu, entidade que gere a sala.
Porto, 25 Novembro de 2011 (Lusa)
in Jornal de Notícias

O imponente edifício da Câmara Municipal do Porto é um dos monumentos mais emblemáticos da cidade. Localizado no cimo da Avenida dos Aliados, levou 35 anos a construir.
O edifício dos Paços do Concelho, da autoria do arquitecto Correia da Silva, começou a ser construído em 1920. No entanto, e após inúmeras interrupções e alterações ao projecto inicial, introduzidas pelo arquitecto Carlos Ramos, as obras só são retomadas em 1947, ficando concluídas 8 anos depois. Finalmente, em 1957, os serviços camarários são instalados no edifício.
O edifício é constituído por seis pisos, uma cave e dois pátios interiores. Para atingir o topo da torre central, a 70 metros de altura, e da qual faz parte um relógio de carrilhão, é necessária uma escalada de 180 degraus.
Fundamentalmente constituído de mármore e granito – o Salão Nobre é disso um exemplo admirável-, o seu interior conta com alguns locais nobremente decorados. Na Sala D. Maria II, distingue-se a pintura a óleo da rainha em tamanho natural e uma mesa gigante em mogno, que dispõe dum único suporte constituído por um pé central que termina em garras de leão. Finalmente, a Sala das Sessões, onde podem ser admiradas três grandes tapeçarias de Guilherme Camarinha.
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