Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Porto.31.Janeiro.1891

As ideias republicanas surgiram, em Portugal, nos meados do séc. XIX, mas só no tricentenário da morte de Camões  se dá o arranque que levará à Implantação da República, em 5 de Outubro de 1910.
Teófilo Braga, o ideólogo republicano que lançou a ideia das comemorações, diz: “A democracia portuguesa conta com uma data gloriosa, que é o começo de uma nova era: o 10 de Junho de 1880.”
O mesmo afirma Basílio Teles: “Antes dessa data não há história do partido republicano”, mas apenas história da ideia, da aspiração republicana…”
O Ultimato Inglês de 1890 e a onda de patriotismo que gerou, radicalizaram e popularizaram o movimento republicano, sobretudo no Porto. Lembremos a constituição da Liga Portuguesa do Norte, no Porto, logo após o Ultimato, sob a presidência de Antero de Quental. O Porto era, então, o maior centro industrial do país, com um proletariado vivendo em péssimas condições económicas, mas com dirigentes capazes e com grande consciência de classe.
Neste ambiente de exaltação, não é de admirar a impaciência que precipitou a Revolução do Porto (31 de Janeiro de 1891), e que, provavelmente, ditou o seu fracasso.
“Nesse dia, cerca das duas horas e meia duma daquelas manhãs, nevoentas e frias, tão frequentes no Porto durante a estação invernosa, no profundo silêncio da cidade adormecida”… assim começa Basílio Teles, na lúcida análise que é “Do Ultimatum ao 31 de Janeiro – Esboço de História política”, o relato do 31 de Janeiro.
Eram 6 da manhã quando as forças sublevadas (os quartéis de Caçadores 9, Infantaria 10 e Infantaria 18, este último invadido por populares que puseram fim às hesitações quanto à sua adesão), comandadas pelos alferes Malheiro, capitão Leitão e tenente Coelho, se encaminharam para a Praça D. Pedro, posicionando-se frente aos Paços do Concelho.
À frente da coluna, uma banda militar tocava A Portuguesa, de Alfredo Keil.
Santos Cardoso, um dos chefes civis da revolta, içou a bandeira vermelha do “Centro Democrático Federal de 15 de Novembro” no mastro do frontão, apoiado pelos vivas e entusiasmo da multidão. A bandeira vermelha e verde só será adoptada a partir de 1910.
Alves da Veiga, às 7 da manhã, fez o seu discurso, entrecortado pelos aplausos da multidão presente.
A República Portuguesa, um dos dois diários republicanos do Porto, às 4 da manhã, anunciava em “Última hora” o “fim da monarquia de Bragança” e a proclamação da República.
Quando as tropas revoltosas, abandonando a Praça D. Pedro, subiam a Rua de Santo António, foram interceptadas e alvejadas pela Guarda Municipal. Alguns soldados são mortalmente atingidos. O capitão Leitão, apesar de ferido, consegue chegar aos Paços do Concelho e tenta organizar a resistência. Mas o fogo da bateria da Serra do Pilar, a partir dos Lóios e de S. Bento, atinge o edifício municipal, causando grandes estragos.
Por volta das 9 horas, a “noite de sonho, noite de anelo, em que pelo ar espesso perpassou a cândida imagem da liberdade e fulgurou crepitante o clarão sagrado do futuro” (Sampaio Bruno), deu lugar  à dura realidade: a Monarquia não caíra.
Seguiu-se a repressão. Prisões, degredo em África…
Mas a caminhada do Homem prossegue e o sacrifício destes patriotas não foi em vão.
O movimento republicano reorganiza-se e, menos de vinte anos depois, derruba de vez a Monarquia.
publicado por amaroporto2 às 22:45

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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Manuel Alegre no Clube dos Pensadores

     
Numa feliz iniciativa do Clube dos Pensadores, Manuel Alegre esteve ontem, em Gaia, para debater o tema "O Sistema político: alternância e alternativas". Embora longa para um espaço destes, penso que vale a pena ler.
 
"O dever dos socialistas é continuar a perguntar"

Felicito o meu amigo Joaquim Jorge e o Clube dos Pensadores por terem criado, contra a corrente, um espaço de debate de ideias que é já uma referência. A nossa democracia precisa de menos regulamentos sobre os comportamentos individuais e de mais respiração, mais debate, mais espaço para confrontar ideias, projectos, causas.
Nos últimos tempos, têm aparecido notícias e gente a anunciar o que eu vou ou devo fazer. Sei bem que a agenda mediática tende a sobrepor-se à agenda política. Mas eu não sou pessoa para se deixar pressionar ou condicionar por agendas alheias. E tal como nunca pedi a ninguém para lutar por mim, também não vou deixar que sejam outros a pensar ou decidir em meu nome. Não sou santo milagreiro nem acredito em homens providenciais. Bato-me por ideias e convicções. Mas tenho uma aguda consciência de que, como dizia um clássico, “há limites para a intervenção consciente num processo histórico inconsciente”. O facto de ter obtido, nas condições conhecidas, mais de um milhão de votos nas últimas eleições presidenciais, não me conferiu o dom de estar sempre a conseguir o impossível, nem me constituiu na obrigação de fazer o que outros não querem ou não sabem fazer.
Venho aqui para expor alguns pontos de vista e para reflectir e conversar convosco.

1. Há trinta e tal anos Portugal era um país cercado: pela ditadura, pela guerra colonial, pelo isolamento internacional, pelas muitas formas de cadeia e censura que as pessoas traziam dentro de si. Havia quem se acomodasse e havia quem não se conformasse. Eu não me conformei.
Em 25 de Abril de 1974, a História deu uma volta em Portugal. Com altos e baixos é imenso o caminho percorrido.
Completaram-se os vários ciclos anunciados pelos três D do programa do MFA. O da democratização, iniciado com as eleições de 75 e concluído em 82, com a criação de um Tribunal Constitucional civil; o do desenvolvimento, cumprindo a transição do subdesenvolvimento até à integração europeia. E o da descolonização, que só se encerrou em 1999, com a devolução de Macau à China e com a lição de democracia dada por Timor.
Se há trinta anos nos dissessem o que iria acontecer ninguém acreditava. Também o mundo estava cercado e bloqueado pela lógica da guerra fria e do equilíbrio do terror. As tentativas de vias originais acabaram esmagadas ora pelos tanques do Pacto de Varsóvia, como em 1968, em Praga, ora pelas bombas de Pinochet inspiradas pelos americanos, como em 1971, no Chile.
Ninguém então podia imaginar que, num país como Portugal, onde o próprio CDS advogava, no seu programa, a “sociedade sem classes”, essa expressão viesse a estar completamente fora de moda e hoje seja quase uma heresia falar de esquerda e socialismo.

2. Com a queda do muro de Berlim, houve quem esperasse que tivesse chegado a hora do socialismo democrático. Mas o que chegou foi a globalização. E com ela, o capitalismo mudou de natureza, como disse recentemente o antigo ministro de Bill Clinton, Bob Reich. Eis as suas palavras: “Nós respeitávamos outrora o modelo capitalista americano pela sua capacidade para garantir um crescimento forte, alicerçado num sistema de valores. Hoje rejeitamo-lo porque ele agrava as desigualdades e aumenta a nossa precariedade. Liquida impiedosamente o cidadão que há em cada um de nós. E põe em causa a coesão e justiça social, o respeito pela empresa, a moralidade, os valores, os serviços públicos.”

3. A grande questão nas sociedades modernas foi sempre a tensão entre a garantia da igualdade de direitos e de autonomia individual, por um lado, e as inevitáveis desigualdades geradas pela dinâmica do mercado, por outro. O mercado cria riqueza, mas, por si só, não é capaz de realizar a justiça social. Havia mecanismos para temperar a lógica irracional do mercado: regulação pelo Estado, redistribuição pelo imposto, educação pública, serviços públicos de saúde e segurança social, sindicatos, contratação colectiva. O problema é que o capitalismo globalizado tende a esvaziar o papel destes mecanismos. A receita do pensamento único é por toda a parte a mesma: diminuição do papel regulador do Estado, esvaziamento dos serviços públicos, precariedade, guerra aos sindicatos. Há, por assim dizer, um cerco neo-conservador que procura evitar ou bloquear alternativas. Há quem se acomode e quem não se conforme. Eu não me conformo.

4. Na Europa, Maastricht propôs, aparentemente em pé de igualdade, a moeda única e a cidadania europeia, mas só previu prazos e sanções no que respeita à moeda. O Pacto de Estabilidade e Crescimento manteve este desequilíbrio entre uma política monetária restritiva e políticas sociais vagas. E foi neste ponto que a esquerda europeia começou a capitular. Quando devia ter defendido e revalorizado o modelo social europeu, cedeu à tentação gestionária. O cerco ideológico neo-conservador atingiu a esquerda socialista precisamente quando ela governava na maioria dos países europeus.

5. No caso português, o cerco agravou-se devido às fragilidades estruturais do país. Baixos níveis de formação, elevadas taxas de insucesso escolar, fraca cultura de inovação, pouca tecnologia incorporada, custos de energia altos. A isto acresce a deficiente competitividade do país cercado pela concorrência internacional. E também, internamente, pelos grandes interesses económicos e mediáticos.
Com honrosas excepções, o capitalismo português foi sempre, e continua a ser, como se viu recentemente no caso do BCP, um capitalismo de favor e de favores. Passa a vida a exigir menos Estado, mas vive e sobrevive à sombra e à custa do Estado, ao contrário das pequenas e médias empresas que constituem a força do tecido económico português. A tudo isto soma-se uma espécie de neo-rotativismo entre os dois partidos do chamado bloco central, cujas diferenças ideológicas, pelo menos no plano das políticas económicas e sociais, têm vindo a esbater-se. Há quem se acomode e quem não se conforme. Eu não me conformo.

6. É certo que na questão dos costumes a actual maioria socialista tem a seu favor alguns passos essenciais: intervenção voluntária da gravidez, lei da paridade, procriação medicamente assistida. A seu favor ainda o modo como foi exercida a presidência portuguesa da União Europeia, sobretudo a realização das cimeiras com o Brasil e com África, que vieram confirmar o que tenho dito: pela sua história e pela língua portuguesa, Portugal, sendo um pequeno país, pode ser um actor global.
Poder-se-á dizer que o executivo tem a seu favor, também, a redução do défice das contas públicas. É um facto, ainda que a redução do défice não possa ser vista como um fim em si mesmo, antes deva ser encarada como um meio para promover o crescimento económico e resolver os outros grandes défices nacionais: o défice social, o défice da educação, o défice cultural e ambiental, o défice do emprego e, sobretudo, o terrível défice das desigualdades.

7. O desemprego não pára de aumentar. Somos já o quinto país da União Europeia com maior taxa de desemprego. De que serve termos um défice de 3 por cento se continuamos a ser um dos países mais pobres da Europa e o mais desigual a distribuir a sua riqueza? Cerca de dois milhões de portugueses, praticamente um em cada cinco, têm rendimentos abaixo do limiar de pobreza.
Uma constatação se impõe: apesar do desenvolvimento registado nos últimos anos, apesar do défice controlado, apesar das ajudas comunitárias, apesar dos milhões de euros dos lucros dos bancos, a pobreza persiste. Segundo o INE, cerca de 40 por cento da população portuguesa vive numa situação de risco de pobreza antes das transferências sociais. Houve algumas medidas positivas, como o complemento social para idosos. Houve igualmente uma proposta de diminuição de 5 por cento do IRC para as empresas do interior. Mas houve também o encerramento de serviços públicos nas áreas da educação e da saúde que deixaram nas populações um sentimento de abandono e desprotecção. Apesar de alguns passos, o problema estrutural da pobreza está por resolver. Há quem se conforme e quem não se conforme. Eu não me conformo.

8. Criou-se a ideia de que era preciso sacrificar interesses egoístas e corporativos em benefício do bem comum e que o objectivo das reformas é o de garantir a sustentabilidade do Estado social. Criou-se também a ideia de um excessivo peso de Estado, esquecendo-se o facto de o sector público ser um dos mais magros da União Europeia quanto ao volume de assalariados. O que é que aconteceu na prática? O nivelamento por baixo do funcionalismo público, a contenção salarial, a perda continuada do poder de compra, o bloqueio das carreiras, a drenagem de recursos, o desmembramento de serviços e a sua crescente privatização, como se a gestão privada fosse necessariamente sinónimo de boa gestão.
O caso mais grave, para mim e muitos portugueses, é o da política de saúde. Em nome da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, além das taxas moderadoras para cirurgias e internamentos, têm vindo a ser aplicadas medidas incompreensíveis que de facto se traduzem pelo esvaziamento desta importantíssima conquista social da democracia portuguesa, que é também uma bandeira do Partido Socialista. As pessoas sentem-se aflitas, desprotegidas e abandonadas.
Defender o Estado social não é enfraquecer os serviços públicos nem fazer com que as reformas os tornem mais caros para quem tem menos. Não é fazer recuar o público e avançar o privado. Assim como defender a escola pública não é admitir que possam concorrer ao cargo de director professores do ensino privado, num primeiro e grave sinal, na educação, de promiscuidade entre o público e o privado.

9. Sei que a globalização, com as suas mutações económicas, sociais e tecnológicas, torna cada vez mais difícil aplicar receitas tradicionais aos novos problemas. A demografia alterou-se, criando uma nova proporção entre idosos e jovens. Estes novos dados desafiam o modelo social europeu. A redistribuição de recursos através da reforma fiscal não é fácil, porque o capitalismo financeiro tem muitas formas de promover a evasão fiscal. Enfrentar os novos poderes transnacionais, globais e, às vezes, mafiosos, é complicado. Entregues a si próprios, os mercados financeiros não tendem para o equilíbrio, como acreditam os fundamentalistas de mercado, mas sim para extremos de euforia e depressão, como escreveu George Soros. As próprias autoridades reguladoras, que deviam limitar estes excessos, perante produtos financeiros cada vez mais sofisticados foram abdicando das suas responsabilidades e afrouxaram a regulação. Pela primeira vez nos últimos sessenta anos, a Reserva Federal americana pode não estar em condições de evitar a recessão, com reflexos mundiais.
Por outro lado, a difusão do pensamento neo-liberal, com a sua permanente campanha contra o Estado e os serviços públicos, faz com que o cerco seja, não apenas económico e financeiro, mas também ideológico e político. Há quem se conforme e quem não se conforme. Eu não me conformo.

10. É neste quadro que se insere a crise do sistema político e da democracia representativa. Crise que se manifesta em três planos distintos:
- na representação política, porque há alternância mas não há alternativa ( é aquilo a que Pascal Bruckner chamou a “melancolia democrática” );
- na atitude dos eleitores, que se traduz tanto no abstencionismo como em novas formas de intervenção, através de movimentos de cidadãos, como nas últimas eleições presidenciais e nas eleições intercalares de Lisboa;
- no vínculo social e político, com o endeusamento do individualismo e a fractura social provocada por novas e velhas exclusões.

11. O meu camarada Elísio Estanque sublinhou recentemente que “a promessa de «socialismo moderno» está a virar uma espécie de «a-socialismo pré-moderno»
Não é este o papel da esquerda moderna. Será que não há alternativas e que aqui, como no resto da Europa, estamos condenados às mesmas políticas de sentido único? Eu penso que há sempre alternativas. E que o papel dos socialistas, desde o princípio, em todas as circunstâncias históricas, foi sempre o de criar e inventar alternativas. Como disse o prémio Nobel de Literatura Octávio Paz – “Faliram as respostas históricas à pergunta formulada pelos primeiros socialistas sobre a injustiça inerente ao capitalismo. Mas a pergunta permanece.”
Há quem tenha deixado de formular a pergunta. Eu penso que o dever dos socialistas é o de continuar a perguntar e a procurar novas respostas.

12. A diluição ideológica faz com que os partidos políticos tendam a deixar de ser reconhecidos com uma identidade própria e a converter-se em simples gestores do poder possível. A melhor qualidade da democracia implica reformas no sistema político, com vista à sua transparência e à aproximação entre eleitores e eleitos. Essa reforma passa por dentro dos partidos, que têm de ser devolvidos à sua autonomia própria. Nem governamentalização dos partidos pelo poder, nem partidarização do Estado pelos partidos.
A reforma passa também pela compreensão do actual papel dos media. Não há espaço público nos dias de hoje sem os media. É essencial preservar a sua autonomia e independência face aos poderes económicos e políticos, bem como o respeito pela deontologia profissional.
Só sairemos da “melancolia democrática” se formos capazes de pensar e lançar as bases de respostas alternativas às políticas do pensamento único. A democracia tem de romper o cerco. A começar pelo cerco que está dentro das pessoas. O neo-liberalismo globalizado e as formas de poder económico e mediático que ele sustenta não são o fim da história.
Há tempos disse que havia um buraco negro na esquerda. Creio que começa a haver bloqueios na própria democracia, porque esta não supõe apenas alternância, precisa também de alternativas.
É preciso mais esquerda na esquerda.
É preciso mais socialismo no partido que dele se reclama.
É preciso mais democracia na democracia.

publicado por amaroporto2 às 21:19

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Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Vejo aquilo que sou...

 

O novo filme de Manoel de Oliveira –“Cristóvão Colombo: O Enigma”- é, simultaneamente, belo, patriótico e uma lição de vida. Tenho consciência  de que são possíveis as mais variadas leituras deste filme. Desde o muito bom ao mau, passando pelo assim-assim. Não há nada de mal nisso. É assim a arte: coloca a cada um as perguntas para as  “suas” próprias  respostas. Revela-nos, por vezes, o que não conhecemos de nós mesmos.
Com recursos limitados e uma linguagem extraordinariamente simples, Oliveira quis , mais do que provar a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo, levar-nos numa viagem à descoberta de nós próprios (como indivíduos e como portugueses), ao encontro da esperança.
Viver com paixão, despertos para o que nos rodeia; encontrar a chave do enigma que se esconde por detrás de cada coisa, de cada pessoa, de cada povo. Contra o complexo de inferioridade e o derrotismo portugueses, propõe um outro olhar: um olhar que "veja por dentro", que compreenda. “Ver” é querer saber as suas histórias, o que significam (Quem sabe o que diz a inscrição em latim do Arco da Rua Augusta, no Terreiro do Paço, ou a razão duma mísula sem imagem, numa das igrejas de Cuba, no Alentejo? ); é procurar conhecer lugares e pessoas que nos transmitam o passado e queiram preservar a nossa memória colectiva... essa deve ser a paixão dos portugueses. A verdade é que passamos pelas coisas e não as vemos, não deixamos que elas nos interpelem, que se desnudem;  não estamos interessados em levantar o véu. E assim desconhecemos o nosso passado, que é a fonte de experiências e saberes acumulados que pode derrotar o menosprezo com que costumamos mimosear-nos e levar-nos por um novo caminho de abertura ao Mundo, não para dominar, não para perdermos a nossa identidade, antes para abraçar, fraternalmente, todos os homens. 
Manoel de Oliveira mostrar-nos, neste filme, o segredo da sua já longa e produtiva vida. Este caminho que nos leva do nascimento à morte está cheio de mistérios e enigmas por resolver. É na paixão que pomos no desvendar desses enigmas que se vive, que está a felicidade possível. A própria vida é o enigma principal. Se conseguirmos sentir, ao vivê-la, o prazer que sente o investigador na procura inalcançável da resposta, terá valido a pena. Como indivíduos ou como povo… perseguir o que está por detrás do aparente. Não será por acaso que se destaca, no filme, versos de Os Lusíadas e de Mensagem. Falta cumprir Portugal?
Terá a minha interpretação algo a ver com a intenção do cineasta? Não sei. Sei apenas que saí do cinema profundamente emocionada.

 

publicado por amaroporto2 às 19:10

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

O PORTO A AGUARELA

 

 “De todos os pintores do Porto do século XX,

 António Cruz foi decerto aquele que melhor

soube entender a alma da cidade.”

 

 Bernardo Pinto de Almeida

 

 

A Cooperativa Árvore tem vindo a homenagear o pintor António Cruz, no centenário do seu nascimento, nomeadamente, através da exposição de trabalhos seus (pintura e escultura)patente no Museu Nacional Soares dos Reis.

António Cruz (1907-1983), nasceu no Porto e é, justamente, considerado o melhor aguarelista da cidade.

A exposição encerra já no próximo dia 31 de Janeiro.

Fui lá esta manhã e confesso que fiquei tocada pela sua sensibilidade e maestria. 

Um portuense que honra a cidade do Porto e cuja obra merece o carinho e o apreço de todos os portugueses.

 

 

 

 

Adoro o nevoeiro. Das quatro estações do ano, a que mais me fala, a que me dá vida interior, um entusiasmo pela vida é o Inverno.

[...]

O Inverno é a minha estação. É no Inverno que eu sinto a minha felicidade. A humidade no reboco das construções exacerba as cores. Esse rosa-venise, o ocre dourado e todas as cores, até o branco, ganham esta patine, está aqui, está a ver esta parede, isto é uma pintura, é um quadro, nem precisa de moldura...

 

[...] É nos dias de Inverno em que há aquelas brumas sobre o Douro, a desfazer-se de manhã, a levantar-se, e começam a aparecer, a surgir uns pedaços da cidade do Porto, aquela Sé, aquela acrópole da Sé e o Paço Episcopal, a Vitória e aquela freguesia de Miragaia, em frente à Alfândega, aquilo é muito belo.

 

António Cruz

 

 

publicado por amaroporto2 às 23:41

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Manuel Alegre no Porto

 

CLUBE dos PENSADORES

 
Debate
 "Sistema Político: alternâncias e alternativas"
 
 Dia 28, Hotel Holiday Inn, em Gaia, pelas 21h30
 
Convidado especial: MANUEL ALEGRE (fundador do PS e vice-presidente da A.R.)

Convidado permanente: JOAQUIM JORGE (biólogo e fundador do clube)

Convidado específico: PEDRO LARANJEIRA (jornalista e director da revista Perspectiva)

Convidado da sociedade civil: MARIA LEONOR SILVA (jornalista e directora do " Comércio de Gaia")
                Devíamos ser um povo mais culto e ter cuidado nas
escolhas que fazemos quer nos partidos
quer nos governos
   


O sistema político está esgotado. A crise vai-se acentuar com as novas leis para as eleições autárquicas e legislativas, exercendo efeitos muito perniciosos na vida pública. A vida interna dos partidos tem que ser alterada e não pode estar à mercê de: pagamento de quotas; procedimentos eleitorais; formas de militância; listas; sindicatos de voto; democracia interna; tráfico de influências; promiscuidades várias; etc.  Funcionam como empresas, em que o secretariado nacional é a administração, a comissão política a direcção e a comissão nacional os cargos intermédios, finalmente os militantes de base são os trabalhadores.
O país está cansado dos mesmos políticos e eles não têm ou não querem ter consciência disso. Não é alterando as leis eleitorais que se renova a democracia quer local quer nacional. As pessoas querem caras novas e a alternativa é renovar os rostos daqueles que estão à frente de projectos políticos. O sistema político não permite a renovação dos partidos, a sadia e salutar crítica e contraditório, fomentando alternâncias e alternativas
Esta oligarquia partidária, tem que ser alterada, a indiferença grassa, a naturalização do inevitável e impossibilidade de modificar este estado de coisas terá consequências nefastas no futuro das novas gerações. A política é vista como algo sujo e promíscuo com a retórica de dizer uma coisa e fazer outra.
A culpa é nossa devíamos ser um povo mais culto e ter mais cuidado nas escolhas que fazemos quer nos partidos quer nos governos, e o grau de exigência fosse o devido e não o mal menor.
 
JOAQUIM JORGE, in Clube dos Pensadores,
22 Janeiro 2008
publicado por amaroporto2 às 00:12

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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Realizador de sonhos

Não consegue parar: tem medo da rotina

 

Recuperou um velho convento em ruínas

 

Prefere a utopia ao profissionalismo

 

Transforma fábrica de chapéus em Fundação

 

Nasceu em Luanda mas quer morrer no Porto

 

Gosta muito de pedras. Ainda gosta mais de pessoas

      José Rodrigues

 

 

»«

   

José Rodrigues nasceu em Luanda, em 1936. Veio para o Porto, onde se formou em escultura pela Escola Superior de Belas-Artes, na qual foi depois professor.

É figura proeminente da arte contemporânea portuguesa e, por isso, não precisa de apresentações.

É do domínio público que é o autor do famoso "Cubo" da Praça da Ribeira, no Porto, do "Cervo" e de "Força", em Vila Nova de Cerveira; que é escultor, pintor, desenhador, encenador; que é reconhecido e premiado em Portugal e no estrangeiro; que foi condecorado, em 1994, com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Obra feita e apreciada... ninguém duvida.

 

Para mim, no entanto, o fascínio deste homem reside na capacidade que tem de se apaixonar por sítios, edifícios e projectos, que executa com entusiasmo "contra ventos e marés".

 

Foi fundador e presidente da Cooperativa Árvore, no Porto (através da qual nasceu o Curso Superior de Arquitectura) e da Escola de Artes Profissionais Árvore.

Participou na criação da Bienal de Arte de Cerveira e aí fundou, também, a Escola de Artes e Ofícios  e  a Escola Superior de Arquitectura.

Por esse país fora, de Paços de Ferreira a Alfândega da Fé, de onde é originária a sua família, esteve envolvido nos mais variados projectos.

 

 

  

 

 Dois deles são verdadeiramente extraordinários e merecem, por isso, a minha maior admiração.

 

O José Rodrigues, penso que em 1974, apaixonou-se por um velho convento do séc. XIV, que se encontrava em ruínas, o Convento de S. Paio, na Serra da Gávea, em Vila Nova de Cerveira. Comprou-o e restaurou-o, com a ajuda daqueles a quem chama seus irmãos e com quem criou uma Associação Cultural. Aí vive, há anos, o escritor Luandino Vieira. Aí fixou residência o escultor até que novo projecto o trouxe, de novo, para o Porto.

 

Dê um salto ao meu blogue SOL POENTE

 

http://snmatias.blogspot.pt/2008/01/outra-forma-de-viver.html

 

onde a história deste projecto está mais desenvolvida.

 

 

Dizia eu que José Rodrigues regressou ao Porto para transformar uma antiga fábrica de chapéus, onde parece que já tinha o seu atelier e que comprou, na Fundação José Rodrigues.

A Fábrica Social/Fundação José Rodrigues pretende ser uma fonte de criação, disposta a apoiar os artistas mais jovens.

Terá vários ateliers, residências, auditório com capacidade para mais de cem pessoas [para concertos, teatro e exposições], arquivo documental, salas de exposições permanentes e rotativas [não só para obras próprias e da sua colecção (de Almada Negreiros, Júlio Resende, Graça Morais, Mário Eloy e Júlio Pomar, entre outros), mas também de outros, como a colecção de Pádua Ramos e, principalmente de novos artistas], espaços para convívio e para realização de tertúlias de reflexão, com bar.

O principal objectivo para este espaço, segundo o escultor, é fazer convergir diferentes formas de pensamento e de arte, porque sem diversidade não há cultura.

 

 

 

Grande obra esta, que merece ser apoiada pelos portuenses. O escultor José Rodrigues é uma figura importante da cidade do Porto, que adoptou como sua.

Está prevista, para o mês de Fevereiro, a abertura deste espaço. É fácil lá chegar. Descendo a Rua do Bonjardim, vira-se na Rua das Musas à esquerda. É uma subida íngreme, só para peões. É na segunda rua à esquerda e chama-se, claro, Rua da Fábrica Social. Este portão é lá no fundo da rua, que não tem saída.  

Não se amedronte! As ruas são acidentadas, mas as distâncias curtas.

publicado por amaroporto2 às 22:33

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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Fernanda Botelho: justa homenagem

Porque nem na morte vou perder o meu sentido de humor

 nem a minha ironia.

 

MIOPIA

Sempre que vejo
o que os meus olhos não queriam ver
(mas que sabem ser verdade)
É sempre este doer.
Como se a minha sensibilidade
estivesse toda no olhar e ver.

Como se a minha revelação
apenas viesse inteira,
para além da fronteira
do que os meus olhos dão.

Sempre que vejo...
Porque me dói assim?
Porque se desprende em mim
essa mágoa-essência
de surpresa retardada?

A minha consciência
está míope e cansada.

 

Fernanda Botelho nasceu no Porto, em 1926, filha de uma família aristocrática com dum sentido de austeridade com o qual iria romper. Quis entrar em Direito, mas tal foi-lhe proibido pela mãe, que conseguiu levá-la a um "curso de mulheres", em Coimbra. Depois de ter iniciado os estudos, considerou que o meio coimbrão era demasiado conservador e muda-se para Lisboa, onde terminou o curso de Filologia Clássica. Ficcionista, tradutora e poetisa foi, nos anos 50, co-fundadora da revista Távola Redonda, onde publicou as suas primeiras poesias.

            

Fernanda Botelho morreu,

no passado dia 11 de Dezembro,

aos 81 1nos

 

 

 

Assustador é o sofrimento, não a morte.

 

             

 

Pois é! Fernanda Botelho morreu. E o país anda demasiado distraído para dar ao acontecimento o relevo que merece. A menos que seja eu a distraída… Claro que as pessoas morrem, mais tarde ou mais cedo. Mas um escritor, um artista, pode ser eterno através da sua obra. É obrigação do país e, sobretudo, da cidade do Porto, onde nasceu, aproveitar o momento do seu desaparecimento físico para divulgar a sua obra. Mais do que elogios ou condecorações, um escritor deseja, penso eu, que leiam as suas palavras, quantas vezes fruto de grande sofrimento.
Lembro aqui o principal da sua obra. Para que todos a possamos conhecer. Esta é a humilde homenagem que presto à grande mulher que soube ser.
 
Obra Poética:
Coordenadas Líricas (1951)
Obra de ficção: 
O Enigma das Sete Alíneas (1956)
O Ângulo Raso (1957)
Calendário  Privado (1958)
A Gata e a Fábula (1960) 
Xerazade e os Outros (1964)
Terra sem Música (1969)
 Lourenço é nome de Jogral (1971) 
Esta Noite Sonhei com Brueghel (1987) 
Festa em Casa de Flores (1990) 
Dramaticamente Vestida de Negro (1994)
As Contadoras de Histórias (1998)
Gritos da Minha Dança (2003)

Vá espreitar o blogue LUAR DE JANEIRO e leia o início de "Dramaticamente Vestida de Negro" desta autora portuense(http://luardejaneiro.blogs.sapo.pt

publicado por amaroporto2 às 15:55

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