Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

CORREIO DA NOITE

 

Em 1934, passámos a véspera de Natal num velho vagão onde viajavam três cães perdigueiros, um hortelão de frades e uma criada de servir, a Rata, que estreava uma peineta nova, dessas que havia com aplicações de turquesa fingida. Não havia transportes e, pouco antes da meia-noite, meu pai lembrou-se de visitar a família, que não era numerosa e por isso lhe dava pena deixá-la, à ceia, na vasta mesa toda mordida por golpes de canivete que até parecia obra de talha. Sujeitámo-nos pois àquela viagem no correio da noite que, além do mais, ia cheio até aos tejadilhos. Alguns preferiram o furgão; levava caixotes de passas de Alicante e uma urna para um morto, coberta com um pano encerado, como se fosse destinada aos abismos do oceano. A Rata persignava-se e rezava umas estropiadas letanias que ela sabia. O hortelão, o Miguel Cunha, era da minha terra – o maior mentiroso, o mais famoso gastador de petas lá do sítio. Nunca vi tal arte feiticeira, tal cordura bem-falante em tecer fantasias. Aos poucos, íamos com ele na legenda dos assuntos e, se um céptico nos cortasse o passo, éramos como mastins sobre a sua lucidez idiota. Porque ao pé do Miguel Cunha, tão generoso a contar-nos novelas, casos tortos, extraordinárias missões do bicho homem, todos os outros eram tolos e leigos no sentimento de urdir a vida.

O comboio, na noite clara, soltava fagulhas verdes e douradas. Víamos o rasto delas pelas portas que iam meio abertas. Eu tinha nesse ano umas luvas de lã de punhos altos, de alpinista, e os dedos estavam vidrados pelo frio.

- Ah, lembra-me isto uma passagem que se deu em Argabiça – disse Miguel, na sua vozinha refilona e alegre. Eu pensei para mim: Temos espanholada. E a Rata interrompeu o seu piedoso discurso de Electra sobre a urna, para se arrumar comodamente entre as caixas de passas. Era uma rapariga a jeito de escultura Maya – estou a vê-la, um ar maciço, fecundo e antigo; os brincos de ouro tinham crostas de cera verde. – Os de Argabiça tinham uma fábrica de urnas – continuou Miguel. – E eram famosos por isso. Mandavam-nas para o Brasil, a direito pelo mar dentro, atadas com sogas umas às outras. E levavam seis dias e poucas horas a lá chegar. Seguiam as correntes; não saltavam as ondas, iam a par delas. Isto poupava-lhes muitas léguas. Eu andava nas podas, que não sou de Argabiça, mas um migalho mais acima. Dois moços chegaram-se a mim e desafiaram-me: Queres tu vir ao Pará? Quero – disse eu. Pendurei a tesoura no cinto e meti-me com eles nos caixões, que era a nossa maneira de embarcar. O mar estava lesto, e o coração do mar batia como um sino. Ouvíamos cantar as sereias, e os filhos delas corriam no fio do cachão sem se afundarem. Chegámos ao Brasil aí pela noite do Ano Bom; a praia estava cheia de velinhas que alumiavam o mar, e as pretas traziam flores e atiravam-nas à água.

- Cala-te, fardeleiro, que te não posso ouvir! – disse a Rata. Desatou com fúria o nó do cabelo e voltou a torcê-lo.

- Eu morra se não falo verdade! – Os olhinhos amarelos do Miguel Cunha, a sua voz cantarina, o cabelo turdilho que ele já tinha, a pequena figura rabina, tudo se me pregou na memória. E o tambalear do vagão nos trilhos naquela noite de alto céu sem bruma.

- Enredas bem os teus enredos – disse meu pai, entre maravilhado e distraído.

- Que falo certo, e isso não me pesa… Tenho como testemunha um cafezal que podei com a minha tesoura antes de vir embora. Ainda lá está o cafezal. E no último pé botei-lhe duas letras, que foram um A e um B. Não era Ano Bom, não era nada disso. Era Adeus Brasil. Assim a luz do sol me alumie, como não foi aparença.

- Eu fio-me – tornou a Rata, moída de ronha, cega. – Olha que pecas! Olha que pecas!

Eu tive de repente medo. Quem viajava comigo naquele escuro lugar? Viam-se os pinheiros e os postes desenhados no claro da lua. Os fechos de cobre da urna tremiam levemente. Àquela hora, em casa, já a ceia tinha sido servida; e os gatos mediam a própria sombra, com elásticos passos, depois dum banquete de espinhas. Não havia presépio; só um Cristo de barro dentro dum fanal, com cravos nas mãos, pintados de purpurina. Eu não recebia presentes – era demasiado pueril e até um pouco ridículo dar presentes a quem se ama. O amor não se comemora. E o Natal até era mais belo quando era obscuro e quase inesperado no decurso dos dias sem história. Perguntei lá em casa:

- O Miguel Cunha mente muito?

- Como uma cesta rota.

Abstive-me de perguntar se ele era um pecador. E toda a vida guardei aquela porfia de alma de ir ao Brasil, conhecer o cafezal onde ficaram gravadas as letras tabeliónicas desse noveleiro, que foi criado de convento e podador em Argabiça.

 

 

Agustina Bessa-Luís, Tríptico,

(in Natal (Editora Arcádia – 1978) 

 

publicado por amaroporto2 às 18:50

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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Pelos Caminhos de Antero de Quental

Foi pelas dez horas da manhã do dia 6 de Fevereiro de 1866, nos então arrabaldes do Porto, conhecidos de quem vai rumo a Braga ou Viana, num sítio ameno, chamado Arca d’Água, por via de uma nascente que inunda, fresca e clara, um vasto reservatório de pedra; foi ali, num plaino encoberto entre pinheiros, que, no dizer de Camilo Castelo Branco, a crítica portuguesa esgrimiu com o ideal alemão.

 

  Foto: Nuno Carvalho - O Jardim da Arca d'Água não existia ao tempo do duelo

   

Representava a crítica portuguesa a robustez janota de Ramalho Ortigão, sucado na vaca da Maia e no vinho da companhia, retesado pela ginástica e pelo banho de chuva – tal como o conheceu, nesse tempo, Ricardo Jorge. E era a aparente fragilidade desleixada de Antero de Quental quem personificava o ideal alemão.

Porquê, as Letras nacionais a travarem-se de razões, decerto sob um céu húmido de névoas, à ponta nervosa do florete?

Ia acesa a chamada Questão Coimbrã, desencadeada pela carta-posfácio de Feliciano de Castilho ao editor do Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, em que o árcade póstumo ferira, injusto, os jovens escritores Teófilo Braga e Antero de Quental, ao pôr-lhes em dúvida o talento e o valor das suas convicções estéticas, na defesa do Realismo nascente contra o Ultra-Romantismo moribundo.

Braga e Quental (escrevia Castilho), pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será deles afinal.

Respondeu-lhe, desenvolta, a fogosidade de Antero, sem cuidar do incenso louvaminheiro a que, durante gerações literárias, estava habituado o magistério cultural do poeta de Ciúmes do Bardo.

Respondeu-lhe com o opúsculo Bom Gosto e Bom Senso, seguido de um outro, A Dignidade da Letras e as Literaturas Oficiais. O tom empregado é, por vezes, violento e cruel, ainda que a razão caiba ao autor no mais profundamente importante da Questão – afinal o choque do passadismo abstracto e certo nacionalismo estreito (representados por Castilho e seus discípulos) com o futuro generoso e o universalismo largo (representado pelos moços de Coimbra), como bem entendeu o ensaísta Manuel Antunes.

Antero vai mesmo ao ponto de acoimar o seu olímpico censor de fútil, tonto, desonesto, além de velho e cego, que ele realmente era. Não lhe retorquiu Castilho, pois prevendo a reacção daqueles que atacava, terminava assim a sua carta a António Maria Pereira: Lá brigar não brigo que tenho mais que fazer. Mas, por ele, retorquiram, indignados, os seus amigos e devotos fiéis, numa revoada agitada de folhetos e artigos.

Um foi Camilo. Outro, Ramalho, com o opúsculo Literatura de Hoje, que pretendia, sem poupar Castilho, não poupar Antero de Quental. Por isso é que, a dada altura, comentava, severo:

Se o Sr. Quental já de antemão sabia, como afirma, abrindo aí margem a novo insulto, que o Sr. Castilho é velho e cego, levará a bem dizer-se-lhe que maculou o Sr. Quental os seus vinte e cinco anos, com a mais torpe das nódoas que um mancebo pode lançar no seu carácter: a cobardia.

Antero não era cobarde. Nem de espírito, nem fisicamente. Põe essa altura pensava, até, alistar-se nas hostes de Garibaldi, para ajudar, heroicamente, a unificação da Itália.

Leu a prosa de Ramalho, e não levou a bem as acusações, que logo classificou, numa carta a António de Azevedo Castelo Branco, de insolências bastante indignas. Decidiu, pois, ir ao Porto para dar porrada no agressor, como na mesma carta revela. Saiu-lhe ao caminho o Camilo, com outra proposta mais fidalga.

O romancista tinha um fraco por Antero, ainda que reverenciasse Castilho, a quem ia informando dos sucessos: Chegou aqui ontem o Antero de Quental (escreve ele ao velho patriarca do Romantismo), com o propósito de deslombar o Ramalho. Dirigiu-se a mim, revelando-me o intento bruto. Despersuadi-o, e indiquei-lhe um caminho mais fidalgo. (…) O Ramalho escolhe a arma. Creio que se picarão a florete.

E assim foi, depois de goradas várias tentativas de nobre conciliação; depois de vivamente discutidas as testemunhas de Antero, gente demasiado jovem para apadrinhar pendências de honra, como o vate pré-simbolista Manuel Duarte de Almeida, um formoso rapaz de dezoito anos, assim descrito por Ricardo Jorge, no seu opúsculo Ramalho Ortigão, dizendo-o irmão apolíneo do autor das Primaveras Românticas, na beleza, no estro e na alma. Mas enquanto tudo isto, nascido de mil dificuldades apresentadas pelas testemunhas de Ramalho (Custódio José Vieira e o Conselheiro Antero da Silva) buscava uma solução, o poeta lamentava-se a um amigo: Cada vez sinto mais o falso da minha posição nesta terra lusitana. Não me entendo com os homens, coisas: apenas com o céu e os montes, mas isto não é suficiente. Não era. E na tal manhã de Fevereiro, eis os dois escritores frente a frente, empunhando, não a pena que lhes competia, mas o florete sanguinário.

Durou pouco, o confronto. Mal se cruzavam os ferros, Ramalho é ferido pelo adversário no braço direito (Ricardo Jorge, por certo mal informado, assegura que foi numa canela). Estava, com aquelas gotas de sangue vigoroso, completamente limpa a honra do ultrajado. Era-se assim em 1866.

Causou natural pasmo, nos cafés e tertúlias literárias portuenses e lisboetas, o resultado do prélio.

Todos esperavam que fosse a ramalhal figura, com elevada reputação de duelista, quem acutilaria o poeta.

Camilo apressa-se a comunicar a Castilho o que se passava, rectificando numa missiva: Disse ontem a V. Exª que o Ramalho ficara levemente ferido. – Enganei-o porque me enganaram em quanto ao ferimento, que foi uma profunda cutilada no braço direito. O Antero mostrou que era professor na espada. O outro cedeu-lhe todas as condições vantajosas, pensando que o adversário era leigo. O velhaco aproveitou-as todas. A isto, replicava Castilho: O tal menino Antero, que supunham só doido, é também espadachim velhaco! Que lhe preste!

Mas não era verdade. Antero nunca frequentara salas de armas, jamais praticara esgrima… salvo, é claro, como risonhamente confessa a Ana Plácido, quando esta lhe pergunta como adquirira tão grande ciência técnica de duelista; salvo o exercitar-se algumas vezes, num quintal coimbrão, com outros companheiros divertidos, a floretear os talos ressequidos da couve galega. Ou então, com o seu amigo Antino de Azevedo, que possuía uma velha espada e narra o facto, floreando com ela, à toa, sem lição de qualquer espadachim, de modo que nenhum (deles) se poderia bater vantajosamente com um galucho de Cavalaria.

E eis como os inovadores coimbrões, na pessoa de Antero de Quental, venciam, não só pelas Letras mas também pelas Armas, um passado que se esboroava sem brilho e sem grandeza.

Muitos anos depois, recordando a João Ramos o duelo famoso, escrevia o poeta: Ramalho Ortigão é um artista da palavra. Burila o pensamento com amor e, uma vez achada a forma, quer-lhe como os pais querem aos filhos. Saiu-lhe a frase apaixonada, quente, rubra da forja – o cérebro. Era ofensiva dos meus brios? Bem pensava ele nisso! Saiu-lhe bela, rutilante, amou-a. Eu é que não podia, sem desdoiro, deixar passar em julgado, que era, como ele escrevera, um fedelho que nem jeitos sabia de ser gente. Respeitou-a, batemo-nos.

   

 

O Grupo dos Cinco: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro

Porto, Palácio de Cristal, 1884

 

 

Estavam feitas as pazes. O génio de Antero dava o braço, generoso e amigo, ao talento de Ramalho. Lá estão eles os dois, juntos, no retrato que reúne cinco dos mais altos expoentes da nossa Literatura, todos da celebrada geração de 70: Eça, Oliveira Martins, Antero, Ramalho e Junqueiro. Lá estão eles, unidos, esquecidos dos ridículos ardores da juventude, ambos reflectindo bom senso, ambos cientes de nos legarem o bom gosto das suas obras.

Contempla-os, desvanecida, a Posteridade.

 (1982)

 

António Manuel Couto Viana,  in 12 Poetas Açorianos

 

 

publicado por amaroporto2 às 18:58

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