Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Garrett entre o Porto e a Terceira

Já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho, à desmoralização, à infâmia (...), à desgraça, à penúria, para produzir um rico?

Almeida Garrett

 

 

 
                           Praça Almeida Garrett                                       Estátua na Praça Humberto Delgado
 
 
João Baptista da Silva Leitão de Almeida nasceu no Porto, em 4 de Fevereiro de 1799. O pai, António Bernardo da Silva, era selador da Alfândega da cidade, e grande proprietário nos Açores, e a mãe, D. Ana Augusta de Almeida Leitão, descendia duma família de comerciantes minhotos, que tinha feito fortuna no Brasil. Foi buscar o apelido Garrett a uma avó paterna, D. Antónia Margarida Garrett, de origem irlandesa.
A cidade do Porto gozava, por esse tempo, de grande prestígio mundial, fundamentalmente por causa da sua importante actividade comercial, mas era já notório o desenvolvimento industrial que estava em curso. Apesar disso e de alguns toques de modernismo que se notavam já, a cidade continuava uma terra de cariz medieval, profundamente provinciana nas pessoas e nos costumes. Por isso, Garrett a comparou mais tarde a "um grande aldeão".
Passou os primeiros anos nas quintas do Castelo e do Sardão (Vila Nova de Gaia) e, por causa das invasões francesas, foi com a família para os Açores, procurando a segurança nas suas propriedades da Ilha Terceira. Foi aí que recebeu não só a iniciação religiosa, mas também a literária, sobretudo de seu tio, o bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família, tornando-se, sob o seu pseudónimo Sílvio, poeta da Arcádia. Chegou mesmo a tomar ordens menores, pensando seguir a vida eclesiástica, e foi numa pequena igreja açoriana que conquistou o seu primeiro triunfo como orador.
Sem vocação, acabou por se matricular na Universidade de Coimbra, em 1816, onde se deixou contagiar pelas ideias do Liberalismo. Terminado o curso em 1820, trabalhou como oficial na Secretaria dos Negócios do Reino e apaixonou-se por uma menina de 14 anos, Luísa Midosi, com quem casou em 1821.
Surpreendido, em 1823, pela Vilafrancada, procura asilo na Inglaterra, onde lê Shakespeare, Walter Scott e Byron. Foi a seguir para França, onde conseguira emprego como correspondente comercial numa firma, escreve o poema “Camões” (1825) – considerado introdutor do Romantismo em Portugal – e “D. Branca” (1826).
Depois da outorga da Carta Constitucional, por D. Pedro IV, regressa a Portugal e funda os jornais O Português e O Cronista, defensores da causa liberal. Não tarda a ser preso, na Cadeia do Limoeiro, e o miguelismo triunfante atira-o, de novo, para o exílio inglês em 1828. No ano seguinte, edita a “Lírica de João Mínimo” e, em 1830, publica “Portugal na Balança da Europa”.
Parte então para a Terceira, donde regressará ao Porto, em 9 de Julho de 1932, integrado no Corpo de Voluntários Académicos que fazia parte dos 7500 “Bravos do Mindelo” que, na véspera haviam desembarcado nas praias de Arnosa de Pamplido. Segue-se o Cerco do Porto, que Garrett aproveita para esboçar o “O Arco de Sant’Ana”. Foram enormes os sacrifícios feitos pelos heróicos soldados do Corpo Académico (Garrett era o nº 72), durante os meses que durou o Cerco. Não é exagero dizer que, a este Corpo, ficou a cidade do Porto a dever uma grande parte da vitória.
Entre 1834 e 1836 representa, em Bruxelas, o novo governo liberal, aproveitando a estadia para estudar a poesia alemã. Já em Lisboa, separa-se de Luísa e relaciona-se com Adelaide Deville (que morre jovem, deixando-lhe uma filha) e, depois, com a viscondessa da Luz, D. Rosa de Montufar.
Passos Manuel encarrega-o, entretanto, de fundar um teatro nacional – o futuro D. Maria II -, bem como um repertório de peças portuguesas. Garrett cumpre estas missões. Edita, entre 1838/43, “Um Auto de Gil Vicente”, “D. Filipa de Vilhena”, “O Alfageme de Santarém” e o justamente célebre “Frei Luís de Sousa”.
Morre em 9 de Dezembro de 1854 (fez ontem 153 anos), mas antes publica, entre outras obras, “Viagens na Minha Terra”, o “Romanceiro” e o seu melhor volume de poemas “Folhas Caídas”.
 
A cidade do Porto deu o nome deste seu filho à Praça fronteira à Estação de S. Bento, um largo, situado na zona histórica da cidade, digno do homem que viveu o Cerco do Porto e ajudou a suster as tropas miguelistas.
Ali bem perto, na Praça do General Humberto Delgado e em frente à Câmara Municipal do Porto, ergue-se a estátua do poeta, da autoria de Barata Feyo.
No entanto, em vida, nunca lhe deu a honra de o eleger deputado pela cidade. Ele, que escreveu: "Se na nossa cidade há muito quem troque o B por V, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia e a liberdade pela servidão.", morreu com a ferida de não ter sido eleito pela sua terra, que amava e que servira.
Camilo Castelo Branco avança uma explicação para esta "ingratidão" da cidade do Porto. Dizia que os eleitores "assentaram os pés de cima sobre os refegos da barriga e regougaram: Chamar ao Porto 'grande aldeão'! Pois o meu voto é que não apanhas."
 

Também na Terceira encontrei memória de Almeida Garrett em Angra do Heroísmo (Angra passou a chamar-se "do Heroísmo" por sugestão e empenho de Garrett) e na Praia da Vitória.

   Angra do Heroísmo

 

 

Praia da Vitória

 

publicado por amaroporto2 às 23:08

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1 comentário:
De lapa a 14 de Dezembro de 2007 às 22:41
cordiais cumprimentos.
Saudades.

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