Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Fernanda Botelho: justa homenagem

Porque nem na morte vou perder o meu sentido de humor

 nem a minha ironia.

 

MIOPIA

Sempre que vejo
o que os meus olhos não queriam ver
(mas que sabem ser verdade)
É sempre este doer.
Como se a minha sensibilidade
estivesse toda no olhar e ver.

Como se a minha revelação
apenas viesse inteira,
para além da fronteira
do que os meus olhos dão.

Sempre que vejo...
Porque me dói assim?
Porque se desprende em mim
essa mágoa-essência
de surpresa retardada?

A minha consciência
está míope e cansada.

 

Fernanda Botelho nasceu no Porto, em 1926, filha de uma família aristocrática com dum sentido de austeridade com o qual iria romper. Quis entrar em Direito, mas tal foi-lhe proibido pela mãe, que conseguiu levá-la a um "curso de mulheres", em Coimbra. Depois de ter iniciado os estudos, considerou que o meio coimbrão era demasiado conservador e muda-se para Lisboa, onde terminou o curso de Filologia Clássica. Ficcionista, tradutora e poetisa foi, nos anos 50, co-fundadora da revista Távola Redonda, onde publicou as suas primeiras poesias.

            

Fernanda Botelho morreu,

no passado dia 11 de Dezembro,

aos 81 1nos

 

 

 

Assustador é o sofrimento, não a morte.

 

             

 

Pois é! Fernanda Botelho morreu. E o país anda demasiado distraído para dar ao acontecimento o relevo que merece. A menos que seja eu a distraída… Claro que as pessoas morrem, mais tarde ou mais cedo. Mas um escritor, um artista, pode ser eterno através da sua obra. É obrigação do país e, sobretudo, da cidade do Porto, onde nasceu, aproveitar o momento do seu desaparecimento físico para divulgar a sua obra. Mais do que elogios ou condecorações, um escritor deseja, penso eu, que leiam as suas palavras, quantas vezes fruto de grande sofrimento.
Lembro aqui o principal da sua obra. Para que todos a possamos conhecer. Esta é a humilde homenagem que presto à grande mulher que soube ser.
 
Obra Poética:
Coordenadas Líricas (1951)
Obra de ficção: 
O Enigma das Sete Alíneas (1956)
O Ângulo Raso (1957)
Calendário  Privado (1958)
A Gata e a Fábula (1960) 
Xerazade e os Outros (1964)
Terra sem Música (1969)
 Lourenço é nome de Jogral (1971) 
Esta Noite Sonhei com Brueghel (1987) 
Festa em Casa de Flores (1990) 
Dramaticamente Vestida de Negro (1994)
As Contadoras de Histórias (1998)
Gritos da Minha Dança (2003)

Vá espreitar o blogue LUAR DE JANEIRO e leia o início de "Dramaticamente Vestida de Negro" desta autora portuense(http://luardejaneiro.blogs.sapo.pt

publicado por amaroporto2 às 15:55

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