Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

Apagar a memória é empobrecer

publicado por amaroporto2 às 17:22

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Adriano de Paiva Brandão

         

 

TV no século XIX

 

Há muito, muito tempo - tinha eu os meus quinze anos, vejam lá! -, ao passar por uma banca de jornais, vi um título que chamou a minha atenção. Não me recordo dos termos exactos, mas o sentido era este: a técnica da televisão foi descoberta por um português.

 

Falei do assunto em casa e todos se riram. O que era compreensível, porque o jornal em questão era um semanário altamente sensacionalista (para a época; hoje há muito pior) e portanto toda a gente de bom senso desconfiava da matéria que "eles" publicavam.

Mas, imagine-se: à sua maneira sensacionalista, o semanário tinha razão. Como eu descobri muitíssimo mais tarde. E é neste ponto que vos levo, em viagem, ao reinado de D. Luís I, para vos apresentar um senhor chamado Adriano de Paiva Brandão (1847-1907).

Paiva Brandão matriculou-se aos 14 anos na Universidade de Coimbra (isso era possível, então) e teve êxito na sua vida académica: aos 19 anos estava bacharel em Matemática e Filosofia e era convidado a doutorar-se na Faculdade de Filosofia. Para receber a borla e o capelo de doutor, teve de esperar pela maioridade. O seu padrinho na cerimónia foi o infante D. Augusto. Depois, prosseguiu a sua vida como docente na Academia Politécnica do Porto.

E onde entra a televisão em tudo isto?

Entra, passe o termo, em 1877, quando foram publicadas em Portugal as notícias sobre o telefone de Graham Bell. O Prof. Paiva Brandão interrogou-se: se era possível transmitir sons à distância, não seria igualmente possível transmitir imagens animadas?

Note-se que outros investigadores, na Europa, formulavam a mesma pergunta; portanto, Paiva Brandão não era o único nem seria talvez o primeiro. Mas a originalidade da sua teoria está em que foi o primeiro a propor o uso do selénio para um sistema de "telescopia eléctrica" - foi assim que ele lhe chamou.

Vem agora a parte mais espantosa da história: a teoria de Paiva Brandão não foi testada por ele e em breve caiu no esquecimento, juntamente com os estudos que o cientista publicou sobre o assunto. Só há relativamente pouco tempo o seu mérito de precursor foi reconhecido internacionalmente. Mas ainda não é, propriamente, algo que toda a gente saiba... E ouço já o grito de revolta: claro! Desgraçado país que não protege nem apoia os seus melhores cérebros!

Pois, mas desta vez, não é bem assim.

Os méritos deste homem foram reconhecidos: o rei D. Luís fê-lo conde de Campo Belo e par do Reino. E a culpa do desaproveitamento da teoria de Paiva Brandão cabe, exclusivamente, a um só homem: Paiva Brandão.

Que não mostrou qualquer interesse em fazer as experiências que poderiam comprovar o que ele demonstra teoricamente. E note-se que tinha a possibilidade de o  fazer. Afinal de contas, era professor de Física na Academia do Porto e teria podido usar o Gabinete de Física. Mas - como salientou o Prof. Vaz Guedes - Paiva Brandão tinha formação coimbrã e, nesses tempos, Coimbra interessava-se mais pela especulação teórica do que pela prática.

E aqui está como um precursor perdeu grandes oportunidades. O que não significa que devamos ignorá-lo ou, sequer, censurá-lo. Em contrapartida, será bom retirar alguns ensinamentos desta história...

 

João Aguiar, Viagens na História

[Tempo Livre, Janeiro 2009 (INATEL)]

 

 

 

publicado por amaroporto2 às 21:49

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Garrett entre o Porto e a Terceira

Já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho, à desmoralização, à infâmia (...), à desgraça, à penúria, para produzir um rico?

Almeida Garrett

 

 

 
                           Praça Almeida Garrett                                       Estátua na Praça Humberto Delgado
 
 
João Baptista da Silva Leitão de Almeida nasceu no Porto, em 4 de Fevereiro de 1799. O pai, António Bernardo da Silva, era selador da Alfândega da cidade, e grande proprietário nos Açores, e a mãe, D. Ana Augusta de Almeida Leitão, descendia duma família de comerciantes minhotos, que tinha feito fortuna no Brasil. Foi buscar o apelido Garrett a uma avó paterna, D. Antónia Margarida Garrett, de origem irlandesa.
A cidade do Porto gozava, por esse tempo, de grande prestígio mundial, fundamentalmente por causa da sua importante actividade comercial, mas era já notório o desenvolvimento industrial que estava em curso. Apesar disso e de alguns toques de modernismo que se notavam já, a cidade continuava uma terra de cariz medieval, profundamente provinciana nas pessoas e nos costumes. Por isso, Garrett a comparou mais tarde a "um grande aldeão".
Passou os primeiros anos nas quintas do Castelo e do Sardão (Vila Nova de Gaia) e, por causa das invasões francesas, foi com a família para os Açores, procurando a segurança nas suas propriedades da Ilha Terceira. Foi aí que recebeu não só a iniciação religiosa, mas também a literária, sobretudo de seu tio, o bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família, tornando-se, sob o seu pseudónimo Sílvio, poeta da Arcádia. Chegou mesmo a tomar ordens menores, pensando seguir a vida eclesiástica, e foi numa pequena igreja açoriana que conquistou o seu primeiro triunfo como orador.
Sem vocação, acabou por se matricular na Universidade de Coimbra, em 1816, onde se deixou contagiar pelas ideias do Liberalismo. Terminado o curso em 1820, trabalhou como oficial na Secretaria dos Negócios do Reino e apaixonou-se por uma menina de 14 anos, Luísa Midosi, com quem casou em 1821.
Surpreendido, em 1823, pela Vilafrancada, procura asilo na Inglaterra, onde lê Shakespeare, Walter Scott e Byron. Foi a seguir para França, onde conseguira emprego como correspondente comercial numa firma, escreve o poema “Camões” (1825) – considerado introdutor do Romantismo em Portugal – e “D. Branca” (1826).
Depois da outorga da Carta Constitucional, por D. Pedro IV, regressa a Portugal e funda os jornais O Português e O Cronista, defensores da causa liberal. Não tarda a ser preso, na Cadeia do Limoeiro, e o miguelismo triunfante atira-o, de novo, para o exílio inglês em 1828. No ano seguinte, edita a “Lírica de João Mínimo” e, em 1830, publica “Portugal na Balança da Europa”.
Parte então para a Terceira, donde regressará ao Porto, em 9 de Julho de 1932, integrado no Corpo de Voluntários Académicos que fazia parte dos 7500 “Bravos do Mindelo” que, na véspera haviam desembarcado nas praias de Arnosa de Pamplido. Segue-se o Cerco do Porto, que Garrett aproveita para esboçar o “O Arco de Sant’Ana”. Foram enormes os sacrifícios feitos pelos heróicos soldados do Corpo Académico (Garrett era o nº 72), durante os meses que durou o Cerco. Não é exagero dizer que, a este Corpo, ficou a cidade do Porto a dever uma grande parte da vitória.
Entre 1834 e 1836 representa, em Bruxelas, o novo governo liberal, aproveitando a estadia para estudar a poesia alemã. Já em Lisboa, separa-se de Luísa e relaciona-se com Adelaide Deville (que morre jovem, deixando-lhe uma filha) e, depois, com a viscondessa da Luz, D. Rosa de Montufar.
Passos Manuel encarrega-o, entretanto, de fundar um teatro nacional – o futuro D. Maria II -, bem como um repertório de peças portuguesas. Garrett cumpre estas missões. Edita, entre 1838/43, “Um Auto de Gil Vicente”, “D. Filipa de Vilhena”, “O Alfageme de Santarém” e o justamente célebre “Frei Luís de Sousa”.
Morre em 9 de Dezembro de 1854 (fez ontem 153 anos), mas antes publica, entre outras obras, “Viagens na Minha Terra”, o “Romanceiro” e o seu melhor volume de poemas “Folhas Caídas”.
 
A cidade do Porto deu o nome deste seu filho à Praça fronteira à Estação de S. Bento, um largo, situado na zona histórica da cidade, digno do homem que viveu o Cerco do Porto e ajudou a suster as tropas miguelistas.
Ali bem perto, na Praça do General Humberto Delgado e em frente à Câmara Municipal do Porto, ergue-se a estátua do poeta, da autoria de Barata Feyo.
No entanto, em vida, nunca lhe deu a honra de o eleger deputado pela cidade. Ele, que escreveu: "Se na nossa cidade há muito quem troque o B por V, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia e a liberdade pela servidão.", morreu com a ferida de não ter sido eleito pela sua terra, que amava e que servira.
Camilo Castelo Branco avança uma explicação para esta "ingratidão" da cidade do Porto. Dizia que os eleitores "assentaram os pés de cima sobre os refegos da barriga e regougaram: Chamar ao Porto 'grande aldeão'! Pois o meu voto é que não apanhas."
 

Também na Terceira encontrei memória de Almeida Garrett em Angra do Heroísmo (Angra passou a chamar-se "do Heroísmo" por sugestão e empenho de Garrett) e na Praia da Vitória.

   Angra do Heroísmo

 

 

Praia da Vitória

 

publicado por amaroporto2 às 23:08

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