Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012

O burburinho de mil vidas

 
 

Deus criou o mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930. E eu, quando uns quatro anos depois, comecei a observar conscientemente a Sua criação, não o fiz como seria de esperar, apenas com os olhos que Ele me tinha dado à nascença, mas quase exclusivamente através dum binóculo.

[…]

Num encanto que permanecerá, maravilho-me com o panorama do rio e da cidade.

Nem a baía de Guanabara, nem Nova Iorque vista do avião ao anoitecer, nenhum Paris, nenhuma Roma, a Amazónia, as Pirâmides, o deserto, nada disso que viria depois e é grandioso, me deixou uma impressão tão viva e duradoura como a da paisagem que se avistava das janelas da casa onde nasci.

Mais tarde dei-me conta de que a razão profunda do meu fascínio não era tanto a inegável beleza da vista, mas o facto de dali, como defronte dum gigantesco ecrã tridimensional, poder testemunhar do burburinho de mil vidas.

Para oriente, os meus olhos alcançavam até ao longe dos altos de Campanhã, as Fontainhas e, espreitando por entre o arco da ponte, as entradas dos dois túneis do caminho de ferro. Na linha superior era um constante passar de comboios. Na outra, muitos metros abaixo, apenas de vez em quando aparecia uma locomotiva a puxar lentamente vagões de mercadorias que desapareciam sob a cidade, a caminho do cais da Alfândega.

Na ponte de cima era o vaivém de eléctricos amarelos, camionetas de carreira, camiões, automóveis, grupos de gente.

Sem eléctricos e de curvas apertadas a cada extremo, a ponte de baixo era mais sossegada, com o seu trânsito de carrejões, vareiras, leiteiras e padeiras, carvoeiros, carros de bois.

De longe a longe um camião com pipas, um táxi com pressa, mas buzinar não adiantava, porque quem ia pesado de carregos caminhava pelo meio do tabuleiro, sem ceder um palmo.

Eu via os carros, via as trouxas. Via mais longe as mulheres da carqueja, curvadas sob molhos incríveis, subindo dos barcos “rabelos” para o cais e, Calçada da Corticeira acima, aos rodeios, com uma lentidão e persistência de insectos. A Calçada da Corticeira, ruim de subir, ruim de descer, tão íngreme que parecia um traço quase vertical na encosta.

Nos Guindais a muralha ligava-se por degraus ao rio e aí atracavam às dezenas “rabelos” e “valboeiros”, os homens do leme correndo descalços sobre a gaiola, os outros atentos ao manejar dos remos e do cordame das velas, na manobra perigosa em que simultaneamente tinham de lutar contra as forças contrárias do vento e da água.

Por vezes acontecia ser o barco apanhado num redemoinho. Ouviam-se gritos. Pessoas corriam pela ponte e pelos cais, pressentindo a tragédia, desatinadas por não poderem acudir. As velas caíam num ápice. Dois ou três homens subiam ágeis a ajudar o timoneiro, juntavam o seu peso ao dele e, carregando na ponta, conseguiam levantar da água a trave do leme. Assim evitavam que a força do rodopiar o quebrasse, mas o perigo continuava igual.

Ao longo dos cais mulheres caíam de joelhos, homens desbarretavam-se em oração, pedindo misericórdia, implorando a Deus para que se apiedasse daqueles pobres em tamanho perigo. À deriva numa corrente tão forte, só a força divina impediria que o barco se fosse espatifar contra um molhe ou o casco de ferro dalgum cargueiro. E milagre, fleugma, ou ciência das coisas do rio, na fracção de momento em que o barco parecia hesitar na sua louca corrida, o leme caía na água, as velas levantavam-se como por si só, o corpo retesado dos homens compensava a força que fazia curvar os remos na travagem. Besta domada, obediente à vontade de quem a mandava, a embarcação ia aos poucos ganhando a margem, até que alguém atirava um cabo e finalmente a prendiam ao cais.

As pessoas ficavam ainda um momento a olhar, a assegurar-se de que já não havia perigo, a dizer-se palavras de conforto. Passada a aflição desfaziam-se os grupos e carregando o seu fardo ia cada um ao seu destino.

Nas casas da Ribeira, estendidas pelo muro, tudo era quietude. Por sobre elas, nos jardins do convento dos Grilos, passeavam em longas filas os seminaristas vestidos de negro. Mais acima, pesados e grandes, o palácio do bispo e a sé. Mas entre as casas e o rio os meus olhos não chegavam para abarcar o tumulto de tanto povo. Uns em correrias desencontradas, outros atarefados na descarga dos barcos, lavadeiras ajoelhadas a esfregar a roupa no cais, ou batendo-a sem dó contra a cantaria dos degraus.
 
 

Devido à curva do rio, do lado do Porto o panorama terminava nos arredores do Palácio de Cristal, mas o resto conhecia-a eu tão bem que me bastava querer e “via” a barra, o mar, os estaleiros do Lordelo, as traineiras ancoradas defronte da Afurada.

Na margem sul, a nossa, a trajectória dos olhos era breve: começava na igreja redonda da Serra do Pilar, descia para os telhados dos armazéns de vinho, o convento das freiras, e ia parar nas árvores seculares da quinta de Campo Belo.

Mas de tudo o que eu via da janela, o que mais me encantava era o rio. Então a barra ainda era funda, entravam por ela enormes cargueiros, tantos que às vezes ficavam atracados dois a dois, desde o Lordelo até à ponte. E porque na margem de Gaia não havia cais, a carga era morosa e pitoresca.

As pipas, os fardos, os caixotes, rolavam pelas pranchas ou levavam-nos os homens da estiva à cabeça para as barcaças, que iam acostar aos navios. Os guinchos funcionavam a vapor e ao içar a mercadoria, ou quando a baixavam para os porões, saía deles silvando um longo penacho de fumo.

Tudo era princípio, novidade. Pedagogo nato, o avô sussurrava-me os nomes das ruas, dos lugares, dos objectos, dos navios, dos países, ordenando e colorindo a realidade que eu ainda não podia interpretar. Quase por inteiro são suas as descrições das tragédias do rio, dos barcos a redemoinhar nas águas turbulentas, da violência dos ciclones.

A paisagem era o filme, ele o comentador, e para me agradar apressava-se de volta a casa depois do trabalho, eu à espera ao cimo das escadas, ansioso por acompanhar a continuação da história do mundo.

 

J. Rentes de Carvalho, Ernestina

publicado por amaroporto2 às 17:03

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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

PORTO

 

Porto, 12 de Março de 1949 - Este Porto dá-me segurança! Depois das fragas da minha terra, é nele que me sinto mais protegido e livre. Em Lisboa ronda-me sempre o pressentimento de qualquer perigo iminente, que não sei se vem do Terreiro do Paço, se da Avenida da Liberdade. Aqui, pelo contrário, caminho de coração tranquilo. É uma superstição como as outras, evidentemente. O poder chega a toda a parte, e já não há canto no mundo onde um homem possa dizer que está a salvo. Contudo, certas premissas valem muito… Os maometanos acreditam no túmulo do Profeta; eu acredito na estátua de D. Pedro IV.

 

MIGUEL TORGA, Diário IV

 

 

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

No 170º aniversário do nascimento de Antero de Quental

 

TENTANDA VIA

II


A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!

Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!

E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;

Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!

Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...

Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!

 

Antero de Quental

[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]

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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

A Cidade nos Livros

publicado por amaroporto2 às 10:24

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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

CORREIO DA NOITE

 

Em 1934, passámos a véspera de Natal num velho vagão onde viajavam três cães perdigueiros, um hortelão de frades e uma criada de servir, a Rata, que estreava uma peineta nova, dessas que havia com aplicações de turquesa fingida. Não havia transportes e, pouco antes da meia-noite, meu pai lembrou-se de visitar a família, que não era numerosa e por isso lhe dava pena deixá-la, à ceia, na vasta mesa toda mordida por golpes de canivete que até parecia obra de talha. Sujeitámo-nos pois àquela viagem no correio da noite que, além do mais, ia cheio até aos tejadilhos. Alguns preferiram o furgão; levava caixotes de passas de Alicante e uma urna para um morto, coberta com um pano encerado, como se fosse destinada aos abismos do oceano. A Rata persignava-se e rezava umas estropiadas letanias que ela sabia. O hortelão, o Miguel Cunha, era da minha terra – o maior mentiroso, o mais famoso gastador de petas lá do sítio. Nunca vi tal arte feiticeira, tal cordura bem-falante em tecer fantasias. Aos poucos, íamos com ele na legenda dos assuntos e, se um céptico nos cortasse o passo, éramos como mastins sobre a sua lucidez idiota. Porque ao pé do Miguel Cunha, tão generoso a contar-nos novelas, casos tortos, extraordinárias missões do bicho homem, todos os outros eram tolos e leigos no sentimento de urdir a vida.

O comboio, na noite clara, soltava fagulhas verdes e douradas. Víamos o rasto delas pelas portas que iam meio abertas. Eu tinha nesse ano umas luvas de lã de punhos altos, de alpinista, e os dedos estavam vidrados pelo frio.

- Ah, lembra-me isto uma passagem que se deu em Argabiça – disse Miguel, na sua vozinha refilona e alegre. Eu pensei para mim: Temos espanholada. E a Rata interrompeu o seu piedoso discurso de Electra sobre a urna, para se arrumar comodamente entre as caixas de passas. Era uma rapariga a jeito de escultura Maya – estou a vê-la, um ar maciço, fecundo e antigo; os brincos de ouro tinham crostas de cera verde. – Os de Argabiça tinham uma fábrica de urnas – continuou Miguel. – E eram famosos por isso. Mandavam-nas para o Brasil, a direito pelo mar dentro, atadas com sogas umas às outras. E levavam seis dias e poucas horas a lá chegar. Seguiam as correntes; não saltavam as ondas, iam a par delas. Isto poupava-lhes muitas léguas. Eu andava nas podas, que não sou de Argabiça, mas um migalho mais acima. Dois moços chegaram-se a mim e desafiaram-me: Queres tu vir ao Pará? Quero – disse eu. Pendurei a tesoura no cinto e meti-me com eles nos caixões, que era a nossa maneira de embarcar. O mar estava lesto, e o coração do mar batia como um sino. Ouvíamos cantar as sereias, e os filhos delas corriam no fio do cachão sem se afundarem. Chegámos ao Brasil aí pela noite do Ano Bom; a praia estava cheia de velinhas que alumiavam o mar, e as pretas traziam flores e atiravam-nas à água.

- Cala-te, fardeleiro, que te não posso ouvir! – disse a Rata. Desatou com fúria o nó do cabelo e voltou a torcê-lo.

- Eu morra se não falo verdade! – Os olhinhos amarelos do Miguel Cunha, a sua voz cantarina, o cabelo turdilho que ele já tinha, a pequena figura rabina, tudo se me pregou na memória. E o tambalear do vagão nos trilhos naquela noite de alto céu sem bruma.

- Enredas bem os teus enredos – disse meu pai, entre maravilhado e distraído.

- Que falo certo, e isso não me pesa… Tenho como testemunha um cafezal que podei com a minha tesoura antes de vir embora. Ainda lá está o cafezal. E no último pé botei-lhe duas letras, que foram um A e um B. Não era Ano Bom, não era nada disso. Era Adeus Brasil. Assim a luz do sol me alumie, como não foi aparença.

- Eu fio-me – tornou a Rata, moída de ronha, cega. – Olha que pecas! Olha que pecas!

Eu tive de repente medo. Quem viajava comigo naquele escuro lugar? Viam-se os pinheiros e os postes desenhados no claro da lua. Os fechos de cobre da urna tremiam levemente. Àquela hora, em casa, já a ceia tinha sido servida; e os gatos mediam a própria sombra, com elásticos passos, depois dum banquete de espinhas. Não havia presépio; só um Cristo de barro dentro dum fanal, com cravos nas mãos, pintados de purpurina. Eu não recebia presentes – era demasiado pueril e até um pouco ridículo dar presentes a quem se ama. O amor não se comemora. E o Natal até era mais belo quando era obscuro e quase inesperado no decurso dos dias sem história. Perguntei lá em casa:

- O Miguel Cunha mente muito?

- Como uma cesta rota.

Abstive-me de perguntar se ele era um pecador. E toda a vida guardei aquela porfia de alma de ir ao Brasil, conhecer o cafezal onde ficaram gravadas as letras tabeliónicas desse noveleiro, que foi criado de convento e podador em Argabiça.

 

 

Agustina Bessa-Luís, Tríptico,

(in Natal (Editora Arcádia – 1978) 

 

publicado por amaroporto2 às 18:50

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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Pelos Caminhos de Antero de Quental

Foi pelas dez horas da manhã do dia 6 de Fevereiro de 1866, nos então arrabaldes do Porto, conhecidos de quem vai rumo a Braga ou Viana, num sítio ameno, chamado Arca d’Água, por via de uma nascente que inunda, fresca e clara, um vasto reservatório de pedra; foi ali, num plaino encoberto entre pinheiros, que, no dizer de Camilo Castelo Branco, a crítica portuguesa esgrimiu com o ideal alemão.

 

  Foto: Nuno Carvalho - O Jardim da Arca d'Água não existia ao tempo do duelo

   

Representava a crítica portuguesa a robustez janota de Ramalho Ortigão, sucado na vaca da Maia e no vinho da companhia, retesado pela ginástica e pelo banho de chuva – tal como o conheceu, nesse tempo, Ricardo Jorge. E era a aparente fragilidade desleixada de Antero de Quental quem personificava o ideal alemão.

Porquê, as Letras nacionais a travarem-se de razões, decerto sob um céu húmido de névoas, à ponta nervosa do florete?

Ia acesa a chamada Questão Coimbrã, desencadeada pela carta-posfácio de Feliciano de Castilho ao editor do Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, em que o árcade póstumo ferira, injusto, os jovens escritores Teófilo Braga e Antero de Quental, ao pôr-lhes em dúvida o talento e o valor das suas convicções estéticas, na defesa do Realismo nascente contra o Ultra-Romantismo moribundo.

Braga e Quental (escrevia Castilho), pelas alturas em que voam, confesso, humilde e envergonhado, que muito pouco enxergo, nem atino para onde vão, nem avento o que será deles afinal.

Respondeu-lhe, desenvolta, a fogosidade de Antero, sem cuidar do incenso louvaminheiro a que, durante gerações literárias, estava habituado o magistério cultural do poeta de Ciúmes do Bardo.

Respondeu-lhe com o opúsculo Bom Gosto e Bom Senso, seguido de um outro, A Dignidade da Letras e as Literaturas Oficiais. O tom empregado é, por vezes, violento e cruel, ainda que a razão caiba ao autor no mais profundamente importante da Questão – afinal o choque do passadismo abstracto e certo nacionalismo estreito (representados por Castilho e seus discípulos) com o futuro generoso e o universalismo largo (representado pelos moços de Coimbra), como bem entendeu o ensaísta Manuel Antunes.

Antero vai mesmo ao ponto de acoimar o seu olímpico censor de fútil, tonto, desonesto, além de velho e cego, que ele realmente era. Não lhe retorquiu Castilho, pois prevendo a reacção daqueles que atacava, terminava assim a sua carta a António Maria Pereira: Lá brigar não brigo que tenho mais que fazer. Mas, por ele, retorquiram, indignados, os seus amigos e devotos fiéis, numa revoada agitada de folhetos e artigos.

Um foi Camilo. Outro, Ramalho, com o opúsculo Literatura de Hoje, que pretendia, sem poupar Castilho, não poupar Antero de Quental. Por isso é que, a dada altura, comentava, severo:

Se o Sr. Quental já de antemão sabia, como afirma, abrindo aí margem a novo insulto, que o Sr. Castilho é velho e cego, levará a bem dizer-se-lhe que maculou o Sr. Quental os seus vinte e cinco anos, com a mais torpe das nódoas que um mancebo pode lançar no seu carácter: a cobardia.

Antero não era cobarde. Nem de espírito, nem fisicamente. Põe essa altura pensava, até, alistar-se nas hostes de Garibaldi, para ajudar, heroicamente, a unificação da Itália.

Leu a prosa de Ramalho, e não levou a bem as acusações, que logo classificou, numa carta a António de Azevedo Castelo Branco, de insolências bastante indignas. Decidiu, pois, ir ao Porto para dar porrada no agressor, como na mesma carta revela. Saiu-lhe ao caminho o Camilo, com outra proposta mais fidalga.

O romancista tinha um fraco por Antero, ainda que reverenciasse Castilho, a quem ia informando dos sucessos: Chegou aqui ontem o Antero de Quental (escreve ele ao velho patriarca do Romantismo), com o propósito de deslombar o Ramalho. Dirigiu-se a mim, revelando-me o intento bruto. Despersuadi-o, e indiquei-lhe um caminho mais fidalgo. (…) O Ramalho escolhe a arma. Creio que se picarão a florete.

E assim foi, depois de goradas várias tentativas de nobre conciliação; depois de vivamente discutidas as testemunhas de Antero, gente demasiado jovem para apadrinhar pendências de honra, como o vate pré-simbolista Manuel Duarte de Almeida, um formoso rapaz de dezoito anos, assim descrito por Ricardo Jorge, no seu opúsculo Ramalho Ortigão, dizendo-o irmão apolíneo do autor das Primaveras Românticas, na beleza, no estro e na alma. Mas enquanto tudo isto, nascido de mil dificuldades apresentadas pelas testemunhas de Ramalho (Custódio José Vieira e o Conselheiro Antero da Silva) buscava uma solução, o poeta lamentava-se a um amigo: Cada vez sinto mais o falso da minha posição nesta terra lusitana. Não me entendo com os homens, coisas: apenas com o céu e os montes, mas isto não é suficiente. Não era. E na tal manhã de Fevereiro, eis os dois escritores frente a frente, empunhando, não a pena que lhes competia, mas o florete sanguinário.

Durou pouco, o confronto. Mal se cruzavam os ferros, Ramalho é ferido pelo adversário no braço direito (Ricardo Jorge, por certo mal informado, assegura que foi numa canela). Estava, com aquelas gotas de sangue vigoroso, completamente limpa a honra do ultrajado. Era-se assim em 1866.

Causou natural pasmo, nos cafés e tertúlias literárias portuenses e lisboetas, o resultado do prélio.

Todos esperavam que fosse a ramalhal figura, com elevada reputação de duelista, quem acutilaria o poeta.

Camilo apressa-se a comunicar a Castilho o que se passava, rectificando numa missiva: Disse ontem a V. Exª que o Ramalho ficara levemente ferido. – Enganei-o porque me enganaram em quanto ao ferimento, que foi uma profunda cutilada no braço direito. O Antero mostrou que era professor na espada. O outro cedeu-lhe todas as condições vantajosas, pensando que o adversário era leigo. O velhaco aproveitou-as todas. A isto, replicava Castilho: O tal menino Antero, que supunham só doido, é também espadachim velhaco! Que lhe preste!

Mas não era verdade. Antero nunca frequentara salas de armas, jamais praticara esgrima… salvo, é claro, como risonhamente confessa a Ana Plácido, quando esta lhe pergunta como adquirira tão grande ciência técnica de duelista; salvo o exercitar-se algumas vezes, num quintal coimbrão, com outros companheiros divertidos, a floretear os talos ressequidos da couve galega. Ou então, com o seu amigo Antino de Azevedo, que possuía uma velha espada e narra o facto, floreando com ela, à toa, sem lição de qualquer espadachim, de modo que nenhum (deles) se poderia bater vantajosamente com um galucho de Cavalaria.

E eis como os inovadores coimbrões, na pessoa de Antero de Quental, venciam, não só pelas Letras mas também pelas Armas, um passado que se esboroava sem brilho e sem grandeza.

Muitos anos depois, recordando a João Ramos o duelo famoso, escrevia o poeta: Ramalho Ortigão é um artista da palavra. Burila o pensamento com amor e, uma vez achada a forma, quer-lhe como os pais querem aos filhos. Saiu-lhe a frase apaixonada, quente, rubra da forja – o cérebro. Era ofensiva dos meus brios? Bem pensava ele nisso! Saiu-lhe bela, rutilante, amou-a. Eu é que não podia, sem desdoiro, deixar passar em julgado, que era, como ele escrevera, um fedelho que nem jeitos sabia de ser gente. Respeitou-a, batemo-nos.

   

 

O Grupo dos Cinco: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro

Porto, Palácio de Cristal, 1884

 

 

Estavam feitas as pazes. O génio de Antero dava o braço, generoso e amigo, ao talento de Ramalho. Lá estão eles os dois, juntos, no retrato que reúne cinco dos mais altos expoentes da nossa Literatura, todos da celebrada geração de 70: Eça, Oliveira Martins, Antero, Ramalho e Junqueiro. Lá estão eles, unidos, esquecidos dos ridículos ardores da juventude, ambos reflectindo bom senso, ambos cientes de nos legarem o bom gosto das suas obras.

Contempla-os, desvanecida, a Posteridade.

 (1982)

 

António Manuel Couto Viana,  in 12 Poetas Açorianos

 

 

publicado por amaroporto2 às 18:58

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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

Alexandre Herculano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

in Jornal de Notícias

publicado por amaroporto2 às 15:13

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