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Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

Vejo aquilo que sou...

27.01.08, amaroporto2

 

O novo filme de Manoel de Oliveira –“Cristóvão Colombo: O Enigma”- é, simultaneamente, belo, patriótico e uma lição de vida. Tenho consciência  de que são possíveis as mais variadas leituras deste filme. Desde o muito bom ao mau, passando pelo assim-assim. Não há nada de mal nisso. É assim a arte: coloca a cada um as perguntas para as  “suas” próprias  respostas. Revela-nos, por vezes, o que não conhecemos de nós mesmos.
Com recursos limitados e uma linguagem extraordinariamente simples, Oliveira quis , mais do que provar a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo, levar-nos numa viagem à descoberta de nós próprios (como indivíduos e como portugueses), ao encontro da esperança.
Viver com paixão, despertos para o que nos rodeia; encontrar a chave do enigma que se esconde por detrás de cada coisa, de cada pessoa, de cada povo. Contra o complexo de inferioridade e o derrotismo portugueses, propõe um outro olhar: um olhar que "veja por dentro", que compreenda. “Ver” é querer saber as suas histórias, o que significam (Quem sabe o que diz a inscrição em latim do Arco da Rua Augusta, no Terreiro do Paço, ou a razão duma mísula sem imagem, numa das igrejas de Cuba, no Alentejo? ); é procurar conhecer lugares e pessoas que nos transmitam o passado e queiram preservar a nossa memória colectiva... essa deve ser a paixão dos portugueses. A verdade é que passamos pelas coisas e não as vemos, não deixamos que elas nos interpelem, que se desnudem;  não estamos interessados em levantar o véu. E assim desconhecemos o nosso passado, que é a fonte de experiências e saberes acumulados que pode derrotar o menosprezo com que costumamos mimosear-nos e levar-nos por um novo caminho de abertura ao Mundo, não para dominar, não para perdermos a nossa identidade, antes para abraçar, fraternalmente, todos os homens. 
Manoel de Oliveira mostrar-nos, neste filme, o segredo da sua já longa e produtiva vida. Este caminho que nos leva do nascimento à morte está cheio de mistérios e enigmas por resolver. É na paixão que pomos no desvendar desses enigmas que se vive, que está a felicidade possível. A própria vida é o enigma principal. Se conseguirmos sentir, ao vivê-la, o prazer que sente o investigador na procura inalcançável da resposta, terá valido a pena. Como indivíduos ou como povo… perseguir o que está por detrás do aparente. Não será por acaso que se destaca, no filme, versos de Os Lusíadas e de Mensagem. Falta cumprir Portugal?
Terá a minha interpretação algo a ver com a intenção do cineasta? Não sei. Sei apenas que saí do cinema profundamente emocionada.