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Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

Faces diferentes da minha cidade

09.02.08, amaroporto2

 

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

Porto.

Maria,

Céu aberto a um azul tão longo que se misturava com o de águas já turvas e as gaivotas em terra. Como estátuas, Pena Ventosa acima - que tormenta as perseguia? E porque se encarniçavam naquela invocação feroz do meu olhar? Maria, montavam guarda. Não viradas para fora da cidade, mas para dentro; não receosas da ira da Natureza, mas compungidas pelo desleixo dos homens. Cada uma velava, acusadora, um telhado desfeito do meu Porto. E são tantos...:(. Clandestinos; escarranchados sobre águas-furtadas que apenas adivinhávamos quando íamos pelas ruelas ao Domingo de manhã; margens feridas do céu que espreitava para lá da roupa a secar; cascos esventrados fugidos para os mastros de navio macambúzio em doca seca; cicatrizes que já nem recordam o sangue esvaído. Subi a um terraço da Rua das Flores, Maria, e vi cascata em ruínas jorrar de uma Sé lívida de asco, vergonha e espera inúteis. E as lágrimas que me turvaram os olhos serviram de tiro de partida ao voo das gaivotas. Que não as confundiram com promessa de chuva, mas tomaram como testemunhas de que eu percebera - a tempestade em terra não abrandará com uma simples mudança de vento...

Foi este texto publicado, por Júlio Machado Vaz, no seu blogue "Murcon", que me sugeriu a utilização de algumas das fotografias que vou tirando, nas minhas deambulações pela cidade.

Atrevo-me a transcrever o texto, que acho belíssimo, para ilustrar duas situações diametralmente opostas na forma de tratar os edifícios. E temos tantos (E tão bonitos!!!) no Porto.

 

    

 

 

 

  

 

 

 

     

 

 

      

 

 

Dois edifícios da mesma rua. Dois edifícios bonitos, apesar de não tão antigos como os da  zona histórica. Um bem cuidado; o outro, apesar de ainda não totalmente degradado, já não tem a maior parte das vidraças, a cortina já esvoaça por fora da janela. Se não me engano, ainda há pouco tempo lá funcionava uma casa de decoração, e creio que até de obras de arte, bastante luxuoso.

O que dói é verificar que as casas e as fábricas (como as da Rua do Freixo) são simplesmente abandonadas. Não haverá nenhuma serventia para uma boa casa onde deixou de funcionar qualquer empresa ou cujos moradores se mudaram?

Que mundo é este afinal? Parece que a destruição é o objectivo principal desta sociedade ao contrário que nos coube. 

E o nosso Porto é tão lindo! Quando vou para a rua e levo a máquina fotográfica, páro, constantemente, presa da beleza de qualquer pormenor. E penso... O cuidado que se punha na construção duma casa... Era, no fundo, a realização dum sonho do seu proprietário. Repare-se, por exemplo, nas andorinhas em azulejo da casa amarela. Alguém pensou naquilo com carinho.

Hoje vivemos em caixotes todos iguais. As cidades, como os homens, estão a perder a sua alma.