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Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

Que fazer quando tudo arde?

02.04.08, amaroporto2

 

Peço, de empréstimo, o título a Lobo Antunes, que me surgiu, de repente, perante a  sensação de que tudo aquilo que amamos, na cidade e no país, está entregue a gente capaz de tudo pelo "vil metal".

Não se respeita as memórias, as vivências, os afectos, das pessoas que fizeram o Porto, ao longo de gerações, pondo nesse empresa o seu amor à cidade e a sua vida. É como se partíssemos do nada... Será que os políticos não sabem História? Será que não se apercebem de que somos o resultado da acção dos homens que nos precederam e que, destruindo esse passado, nos estão destruindo a todos? 

Os portuenses têm de se levantar contra os "tiranetes" incultos, impreparados e sem consciência do que fazem, a quem incautamente "deram o poder".

A democracia não se esgota no voto, obriga-nos a estar atentos e a uma atitude de exigência face aos poderes instituídos. De outro modo, limitámo-nos a "passar cheques em branco". É isso que queremos?

 

Não é o Bolhão de sempre, comerciantes de pregão em riste, piada solta na ponta da língua. A visita pascal conduzida pelo pároco de Santo Ildefonso, acompanhado de um grupo de acólitos, ontem, ao início da tarde, impôs outra solenidade ao mercado do Porto. Colchas acetinadas nas varandas, bordados em toalhas de linho a debruar as bancadas de mercadoria, ramos de alecrim "para dar sorte", pratos de amêndoas para debicar e, no chão, circuitos de pétalas de flores coloridas. Poderá a fé salvar os comerciantes do Bolhão, travando a corrida para a transformação do espaço tradicional em centro comercial?
 
 
Não é a fé que nos salva; são as ideias. E a nossa ideia é ter obras. Só que não são obras para fazer um centro comercial. Laura Gonçalves
Mas já não é o que era. Antigamente, a entrada estava repleta de flores, as pessoas vinham de propósito. Hoje, está parado, mas ainda há-de ser bom outra vez. Natalina Lapa
[Declarações de vendedeiras, aquando da visita pascal],
 in Jornal de Notícias de 26 de Março de 2008

 

 

Acontece, no entanto, que o Mercado do Bolhão não é um edifício qualquer e, muito menos, um espaço devoluto. O que ainda lá está, goste-se ou não, é só um dos lugares mais emblemáticos da cidade e uma das imagens que melhor condensa e representa o seu espírito e as suas tão singulares vivências. De tal forma assim é que, para além do evidente reconhecimento colectivo daquele tão emblemático “lugar” como património de toda uma região, foi o próprio Ministério da Cultura que através dos seus órgãos próprios (IPPAR/IGESPAR), que também o reconheceu como “Imóvel de Interesse Público” e, por isso, o classificou.
Mas, nada disto foi tido em consideração, na apresentação do chamado “projecto” do “futuro Mercado”. […] porque o seu autor se limitou a dizer […] o que ia fazer, omitindo o facto de o fazer num edifício existente, com uma vivência específica e que, por isso mesmo, está classificado e protegido. […] o Bolhão não vale mais do que as suas quatro paredes exteriores (as fachadas?) porque, de tudo o que lá está hoje seria o que iria restar no “futuro”, se para tanto houvesse engenho e arte e… orçamento! É que, manter em pé as tais quatro paredes que são, afinal, o que permite dizer à TCN e à CMP dizer que o “Bolhão não vai ser demolido” e ao arquitecto/autor dizer que “o edifício vai ser respeitado”, não é tarefa, nem simples, nem rápida, nem barata. É certo que o arquitecto americano da TCN falou em inglês da Holanda, com tradução para português de Portugal pelo Senhor engenheiro da TCN, mas ninguém acreditará que o problema seja uma mera questão de tradução! O que está em causa é outra coisa e essa é, no essencial, a verdade, que não é uma simples questão de “tradução”.
A questão é que a cidade não dorme e, sobretudo, ainda não morreu! De contrário, já o Bolhão estaria, de facto, morto e a desaparecer por trás daquelas quatro paredes transformadas em mausoléu e dentro dele, uma boa parte da alma da cidade! Só que a cidade parece recusar deixar-se matar assim! [*]
 
Arq.º Manuel Correia Fernandes, “Só a verdade serve”
 (Passeio Público), Jornal de Notícias
[*] O destaque é meu.

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