Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

"A BRASILEIRA" em risco de fechar

02.05.08, amaroporto2

O edifício foi comprado, ao BPI, em hasta pública pelo empresário António Costa, que o arrendou ao “Caffé di Roma” (na esquina com a Rua do Bonjardim) e a Jorge Rocha que, em Dezembro de 2003, reabriu “A Brasileira”, salvando o lindíssimo edifício da degradação a que esteve exposto durante uma década de abandono.
Parece que o proprietário deixou de pagar ao banco e este pretende encerrar os estabelecimentos.
Se o encerramento se verificar, para além de todos os outros prejuízos, perdem os seus postos de trabalho mais de vinte pessoas. E o que acontecerá ao edifício tão emblemático e importante na história da cidade do Porto?
Seria bom que o BPI não se apressasse e procurasse encontrar uma solução que não passe só pelo mero lucro e tenha em conta a preservação do património da cidade. Há soluções para tudo. É preciso é vontade para as encontrar.
  

 

Machadada no património  
A notícia de que “A Brasileira” corre o risco de desaparecer, a concretizar-se, será mais uma machadada no já tão depauperado património histórico do Porto. Não é possível dissociar a história do antigo café da baixa portuense, da vida cultural, cívica e política da própria cidade, dos últimos cem anos.
Adriano Teles, antigo farmacêutico da Rua do Bonjardim que, em Minas Gerais, no Brasil, para onde emigrou nos finais do século XIX, se dedicou ao negócio do café, fundou “A Brasileira” em 1903, no regresso ao Porto, com o objectivo de criar e difundir uma marca própria de café. O acto inaugural do novo estabelecimento constituiu um acontecimento social sem precedentes na cidade. Foi de tal modo elevado o número de pessoas presentes que, contam as notícias da época, houve necessidade de requisitar dois polícias para regularem o trânsito que se tornara caótico. Logo após a inauguração, e durante 13 anos consecutivos, com o intuito de difundir a nova marca, foi servido gratuitamente café à chávena aos balcões de “A Brasileira”. A pouco e pouco, o novo estabelecimento foi-se impondo no mercado, ao mesmo tempo que as suas salas se iam transformando em ponto de encontro de tertúlias culturais – das mais animadas da baixa portuense. O edifício actual é dos anos 30. Foi desenhado  pelo arquitecto Januário Godinho e decorado com esculturas de Henrique Moreira, espelhos franceses de Max Igram e decorações de alabastros de Vimioso. Inaugurou-se em Março de 1938. Com o título de “A Brasileira”, a firma proprietária do café publicou, desde praticamente o início a até aos anos 40, um quinzenário. Nas décadas de 50 e 60, era um lugar onde se reunia a nata dos literatos, jornalistas, políticos e gente do Teatro. Com uma curiosidade: os homens da Esquerda sentavam-se ao lado direito; e os da Direita ocupavam as mesas dispostas no lado esquerdo.
Que pena que um lugar com tanta história possa vir a desaparecer!

Germano Silva