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Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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A MURALHA FERNANDINA

25.09.07, amaroporto2

15 de Maio de 2007

 

A ideia de construir uma nova muralha, à volta da cidade do Porto, de modo a dar aos seus moradores as garantias de protecção e de defesa que então já não tinham, surgiu em 1336. Reinava D. Afonso IV, há pouco mais de 10 anos, e a necessidade duma tal cerca fez-se sentir mais premente na sequência duma tentativa de invasão castelhana patrocinada por Afonso XI. O intento foi anulado pelas forças portuguesas, comandadas pelos bispos de Braga, D. Gonçalo Pereira (avô de D. Nuno Álvares Pereira) e do Porto, D. Vasco Martins, aos quais se juntou o grão-mestre da Ordem de Cristo, D. Frei Esteves Gonçalves. A batalha travou-se nas margens do rio Leça, sendo os castelhanos obrigados a retirar. Receando novas investidas, o rei "Bravo", no Verão de 1336, decidiu patrocinar a construção dum sólido muro defensivo, em redor do Porto, para substituir a Cerca Velha, desde há muito rompida pelo alargamento e expansão do burgo portucalense e pelo desgaste dos anos.

D. Afonso IV morreu em 1357, sem ver totalmente construída a muralha que mandara erguer. O seu sucessor, D. Pedro I, talvez preocupado com outras questões de justiça, esqueceu a obra iniciada pelo pai. Foi D. Fernando que se empenhou no prosseguimento das obras. Só 40 anos depois, em 1376, a cerca ficou concluída. Daí o nome de "muralha fernandina".

Esta muralha, rodeando de largo a Cerca Velha, tinha um perímetro de 2.600 metros e cerca de 10 de altura. Os muros eram reforçados por 30 torres e abriam-se para o exterior em várias portas e postigos (conforme a sua importância e serventia), para entrada e saída de pessoas, carros, animais e mercadorias. A maior parte dessas aberturas dava para o rio (onde existia o cais de desembarque e a alfândega régia) e foram aumentando, ao longo dos tempos, até atingirem um total de 18: as Portas do Sol, Cimo de Vila, dos Carros, de Santo Elói, do Olival, das Virtudes, da Esperança e Nova (ou Nobre, por ser a mais importante de todas e por ser por ela que entravam reis, bispos e outras personalidades importantes, quando vinham à cidade) e os Postigos dos Banhos, da Lingueta, do Terreirinho, do Carvão (o único que sobreviveu até hoje), do Peixe, da Ribeira (mais tarde, transformado em porta), do Pelourinho, da Forca, da Madeira e da Areia.

No seu interior outras cercas surgiram, delimitando a judiaria e os terrenos administrados pelas instituições religiosas.

POSTIGO DO CARVÃO, um dos 9 que existiram na zona da Ribeira, voltados para o rio. LIgava o Cais da Estiva (ou da Alfândega Velha) à Rua da Fonte Taurina. Devido às obras efectuadas no local, ao longo dos anos, este postigo está pouco visível. No interior, vêem-se ainda os degraus de acesso à parte superior, onde outrora existiu uma inscrição gótica, que assinalava o facto de se ter encarregado um vedor de examinar as âncoras de Gaia, "para pôr uma cadeia e amarração", no ano de 1348, Este postigo servia para dar entrada ao carvão que, extraído ou fabricado nas carboníferas de Gaia e Gondomar, era exportado em barcaças e descarregado num dos cais da Ribeira.

Os séculos XIII, XIV e XV foram de grande desenvolvimento para a actividade marítima e comercial, intensificando-se as ligações com portos europeus como Barcelona, Valência, La Rochelle, Ruão, Londres, Ypres, Antuérpia, etc. Nesta época, os estaleiros do Porto e de Vila Nova de Gaia eram os mais importantes do país. Nasceu no Porto um dos negociadores do tratado que se celebrou, em 1352, entre Portugal e a Inglaterra. Chamava-se Afonso Martins Alho, e a ele se deve a expressão popular que designa uma pequena esperta: "fino que nem um Alho".

O Porto cresce em população e importância económica e os burgueses envolvem-se em questões e em lutas com os seus bispos, de cuja subordinação temporal procuravam libertar-se. Não raro, o rei serviu de medianeiro entre as partes desavindas, sendo D. João I quem, ao cabo de 2 séculos, consegue terminar com as contendas, comprando aos bispos do Porto o direito à jurisdição temporal que estes tinham sobre o burgo e respectivo couto.

 

             

 

    A expansão da cidade, cujo florescimento se acentuou nos sécs. XVIII-XIX, fez com que grande parte da população vivesse nos arrabaldes, já fora dos muros. Em nome do progressivo desenvolvimento urbano, a muralha vinha a ser sacrificada desde o séc. XVII. Aos poucos, e tal como acontecera com a anterior cerca, os seculares muros da fernandina foram sendo submersos pelo casario ou demolidos para a abertura de novas ruas. Em muitos dos edifícios públicos, que foram construídos a partir do séc. XVII, foram aproveitadas as pedras da muralha derrubada. No séc. XIX, a muralha sofreu a condenação final, sendo demolida na sua quase totalidade.