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Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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O Porto de José Régio

03.10.08, amaroporto2

Jardim da Cordoaria

 

O Liceu funcionava num casarão medonho, imenso, à velha e lôbrega Rua de S. Bento da Vitória. Em frente, era a Cadeia da Relação. À entrada da rua havia prédios sujos e bodegas escuras, donde vinha a exalação infecta dos comes-e-bebes para gente pobre. Pelos passeios, e extravasando, circulava uma população miserável mas animada, que se descompunha, que ria, que praguejava ou dizia chalaças, e tinha ao ar livre o mesmo violento à-vontade que dentro de casa.

Certos dias, tudo isto oprimia o coração de Lelito de uma tristeza que o acabrunhava, e lhe parecia irremediável. Na realidade, só o ajudava a sentir ainda mais fundo a sua própria melancolia.

 

A Cadeia da Relação. À esquerda fica a Rua de S. Bento da Vitória

Nas imediações, uma ou duas casas de má fama seduziam os estudantes mais velhos. Mulheres pintadas, com um particular desleixo de maneiras, penduravam os seios moles do peitoril das janelas. Um dos Pessegueiros já lá fora, a uma dessas casas. Gostara, voltara. E até trazia na carteira uma fotografia que furtara do quarto de uma das tais deusas. Uma vez, convidara Lelito a acompanhá-lo. Mas Lelito não acedera. Embora uma curiosidade malsã e o antegosto do prazer ignorado o atraíssem a tais antros, aquelas mulheres grosseiramente sedutoras, que ouvira, na rua, soltar gargalhadas roucas e provocar os transeuntes com meneios libertinos, só lhe inspiravam desgosto, espanto e quase medo. Preferia ir até à Cordoaria. Aí havia cisnes brancos deslizando no lago de águas verdes; chorões que se abriam em folhagens pendentes, flutuantes, baloiçando à brisa como longas tranças; e altas árvores escuras em volta ou por trás dos bancos, fazendo abóbada lá em cima.

Ao fundo da calçada, também havia uma espécie de miradoiro para o casaria da cidade, os bairros de à beira rio e os longes de Vila Nova de Gaia. Era bem mais alegre, sobretudo quando o sol enchia o céu e doirava todo o burgo. E uma vez Lelito metera por becos e ladeiras, descera uns lanços de escadinhas escusas, e fora quase até à Foz (julgara ele) pela margem do Douro. Outra vez, como os outros, arriscara-se até às ruas centrais da cidade. Mas andara tão assustado, com tal pavor de encontrar alguém de Azurara ou do colégio, que lhe nem prestara a deambulação… Só por desafio e desespero a repetira depois várias vezes. Pouco ou nenhum prazer lhe tinham dado estas novas escapadas. Simplesmente provara a si próprio que era capaz de afrontar um medo humilhante, rebelar-se contra o jugo… Pelo mesmo sentimento resolvera acompanhar, qualquer dia, o Pessegueiro à tal casa de vício. Até ao presente, - faltara-lhe coragem.

[…]
- Pedi licença para sair hoje às cinco horas, logo que chegue do Liceu. Encontro-me com a minha noiva no Café Rocha. Sabe onde é…, à esquina da Praça. Se puder dar-se ao incómodo de passar por lá…
- Decerto…, com muito gosto – repetiu Lelito, um pouco mais senhor de si; mas compreendendo que falavam ambos, agora, num tom de quase afectado mundanismo. – Não poderei demorar-me muito tempo. O comboio sai qualquer coisa antes da seis, é preciso tomar o eléctrico para a Boavista… Mas sempre nos poderemos encontrar uns minutos.
 

 

José Régio, A Velha Casa I