Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Nas escadas da PIDE
Conheço Manuel de Oliveira desde sempre, isto é, desde que vi o seu maravilhoso Aniki-Bobó e esse genial documentário que é A Caça, tendo acompanhado pela vida fora a sua pessoalíssima produção monumental. Mas o primeiro encontro em carne e osso deu-se numa madrugada fria dos começos de Dezembro de 1963, ia eu a subir e ele a descer as escadas da PIDE, ambos acompanhados por agentes daquela polícia.
Olhámos um para o outro e esboçámos um sorriso de circunstância. Ao olhar observador de Manoel de Oliveira não escapou um pormenor, eu trazer ainda os atacadores dos sapatos.
Vinha ele de um interrogatório e ia eu para outro. Estávamos “alojados” nos curros do Aljube, em condições infra-humanas. Manoel de Oliveira apenas fizera resistência moral ao regime, estava preso praticamente por equívoco e poucos dias depois saía em liberdade, com bem más recordações da tortura do sono e da exiguidade do cárcere. Eu era acusado de pertencer ao Partido Comunista e às Juntas de Acção Patriótica, às quais de facto pertencia, mas neguei tudo obstinadamente e continuei ainda por algum tempo na frialdade do Aljube.
Alguns anos depois do 25 de Abril, Manoel de Oliveira procurou-me e quis reconstituir, na medida do possível, aquele episódio, na escadaria da PIDE, para o inserir no filme das suas memórias, belíssimo documento cinematográfico que mais tarde vi, a seu lado, em sessão especial, apenas para alguns amigos íntimos.
Ainda pensámos numa colaboração futura, que os acasos da vida frustraram.
Vejo sempre os seus filmes com paixão cinéfila e com um muito especial afecto de antigo companheiro de desventuras.
Urbano Tavares Rodrigues
in Jornal de Letras, Artes e Ideias
[3-16 Dezembro 2008]
Sábado, 13 de Dezembro de 2008

OLIVEIRA E CAMILO
Nunca a entrega à Arte vem sozinha. Quando assisti, nos idos de 1978 (Dezembro), em Florença, à estreia mundial de “O Amor de Perdição”, fervia-me dentro o deslumbramento camilianista e a memória da jóia chamada “Aniki-Bobó”. Estava preparado para a adaptação (um risco) duma obra excepcional da Literatura e de gostar ou condenar. Depois, era emocionante a homenagem a Mestre Manoel de Oliveira. Aquilo que aconteceu foi o seguinte: vi uma obra-prima transformar-se noutra obra-prima, agora recriada e revelada por um realizador de génio e por actores exemplares, que conseguiam transmitir poesia e tragédia. E vi uma sala repleta aplaudir de pé. Na Itália -mundo maravilhoso-, tem sabor especial. E deixa uma impressão indelével.
Manuel Poppe
Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Agustina Bessa-Luís:
Eu aparento Manoel de Oliveira àqueles poetas saudosos que tivemos: Bernardim foi um deles, outro o cavaleiro Francisco Manuel de Melo. Vou dizer porquê. Porque em todos há mais uma determinação de fazer obra sua, do que voz do mundo. E fazer das histórias fatais, peregrinas fantasias.
João Mário Grilo:
Creio que o Oliveira está sempre a olhar para a frente e, consequentemente, nos faz olhar a nós na mesma direcção, como acontecia com o Eisenstein ou, na poesia com Baudelaire.
José-Augusto França:
Quinto Império ou Non ou a Vã Glória de Mandar, Portugal passa, em seus mitos, desgraças e inquietações, em obras que o definem, ou nos definem a nós, incertos portugueses buscando utopias – nos Portos da nossa infância…
Rodrigues da Silva:
Oliveira, esteticamente, nunca se satisfez, nem nunca se repetiu; demonstrou sempre ser um amante da eterna pesquisa, da eterna experiência, jamais adoptando receitas, o que faz dele um criador anti-académico por excelência.
in Jornal de Letras, Artes e Ideias
[3-16 Dezembro 2008]
Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Este livro representa o percurso de um portuense atento ao que se passou na sua cidade, disposto a enfrentar os desafios das transformações que nela vão ocorrendo e a assunção da defesa da sua integridade contra os assaltantes do nosso quotidiano. É, se quisermos, uma sucessão de depoimentos pessoais sobre como a passagem dos anos foi sendo vista por uma testemunha implicada nos acontecimentos. Persistência e mudança, perenidade e modificação. Grandeza e miséria, dignidade e servidão, estabilidade e conflito. Eis o espaço em que nos movemos neste universo a que chamamos Porto. Dele se fala e volta a falar. Por ele se insiste. A partir dele se propõe um amanhã que não desminta a História. Sem renunciar ao combate, sem concessões, ao que se desconsidera e rejeita. Sem esquecer o apoio persistente e, quando não, caloroso ao que se aprecia e considera. Com a cidade, pela cidade, em prol da cidade. Nos bons e nos maus momentos. Sempre. Porque a cidade, como todo o grande amor, ama-se sem perder tempo a justificar porquê. Apenas porque sim, já que as justificações remeteriam para o mar das infâncias, o turbilhão das emoções e dos sentimentos, o tropel dos vivos e dos mortos. Para o grande Segredo, o grande Silêncio, o grande Mistério.
Hélder Pacheco, Ver o Porto