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"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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RAUL BRANDÃO: um portuense ilustre

11.10.07, amaroporto2

Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

Raul Germano Brandão
 
Raul Brandão (12 de Março de 1867-5 de Dezembro de 1930) nasceu no Porto (Foz do Douro) e faleceu em Lisboa. Matriculou-se no Curso Superior de Letras, tendo criado, com António Nobre e Justino de Montalvão, o grupo iconoclasta Os Insubmissos, que coordenou a publicação de uma revista com o mesmo título. Dirige nos finais do século XIX, com Júlio Brandão e D. João de Castro, a Revista de Hoje e colabora no jornal Correio da Manhã. Com 24 anos de idade, Raul Brandão decide deixar o curso de letras e muda-se para a Escola do Exército. Após o curso de oficiais tirado em Mafra, muda-se para Guimarães onde é colocado como alferes.
A partir de 1912, já reformado no posto de capitão do exército, onde ingressara em 1888, alternaria entre a sua “Casa do Alto”, na Nespereira (Guimarães), e Lisboa, onde passava parte do Inverno.
Elemento activo da “geração de 90” (século XIX), os seus textos, publicados a partir de 1893 no jornal Correio da Manhã, reflectem já um acentuado pendor ético-social e uma obsessiva interrogação sobre o sentido de um mundo sem valores e em acelerado processo de dessacralização. Nele as chamadas Questão Social e Questão Religiosa fundem-se numa mesma problemática que passará a dar conteúdo às suas obras.
Obras principais: A Farsa, O Pobre de Pedir, El-Rei Junot, Húmus, História d’um Palhaço, Memórias (3 tomos), O Doido e a Morte (teatro), Os Pescadores e As Ilhas Desconhecidas (livros de viagens).

  

 Raul Brandão 

 

 

   

 

 

Livro de Apontamentos do autor:

 

O Silêncio e o Lume (Dezembro,1924)
 
Querida: estamos sozinhos à mesa nesta noite infinita [...]
 
Um destes dias temos de nos separar, e é natural que seja eu, que sou mais velho, o primeiro a partir... Antes, porém, quero dizer-te que te devo o melhor da vida. Foste tu que me desvendaste o amor, que eu desconhecia. A bondade e a ternura, que eu desconhecia. Não exerci talvez nenhuma influência na tua alma – tu apaziguaste-me. O amor era em mim um simples impulso: criaste-o, e pouco a pouco essa força nas tuas mãos se transformou em sentimento religioso.
 
Olha para os meus cabelos todos brancos... Julgava que o amor ia diminuindo com o tempo – e o meu amor não cessa de aumentar até à morte e para além da morte. [...]
 
É certo: cada ano que passa é um laço que nos prende e quanto melhor conheço a tua alma, mais me purifico ao seu contacto. Não só fazes parte do meu ser, mas da minha consciência. Chego às vezes a supor que és tu a minha consciência. [...]
 
Foste o fio que ligou a minha vida desordenada. Há em mim um ser desconhecido que me leva, se não estou de sobreaviso, a acções que detesto. Uma palavra tua me detém. Tenho passado o tempo a comentar-me e poucas almas me interessam como a minha. O que eu amo sobretudo é o diálogo com esse ser esfarrapado. Dêem-me um buraco e papéis e condenem-me à solidão perpétua. É-me indiferente... Isto é um erro – e tu fizeste-mo sentir. Sem mo dizeres – compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada. Não é por a esmola da velha do Evangelho ser dada com sacrifício que é mais aceite no céu que o oiro do rico – é por ser dada com ternura. O importante é a comunicação de alma para alma. A mão que aperta a nossa mão, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo. [...]
 
O sentimento da vida humilde inspiraste-mo tu; este e outros de apaziguamento e verdade. [...]
 
Cada vez me aproximo mais de ti. O que há de puro em mim a ti o devo. És limpidez e ternura.  
 
Eu exagero sempre a dor, tu nunca te queixas. Andas nas pontas dos pés. Mal respiras – e estás sempre presente. Tens uma capacidade para a dor que eu não possuo.
 
Tudo em ti se faz naturalmente, tão naturalmente que ninguém dá por isso. A tua bondade não é um esforço. E é-te tão fácil partilhar a desgraça e as penas dos que se aproximam de ti!... Ninguém te vê e fazes-te sentir em toda a casa. Aquece-la. Estás em toda a parte, e ao mesmo tempo a meu lado. És como o ar que respiro.
 
Qual é a fonte escondida da tua vida, só o sei agora. Nunca pensas em ti – pensas sempre nos outros, ocupada num dever a cumprir, não como dever mas como instintiva compreensão da Vida.
 
Já uma vez te propus matarmo-nos ambos, para penetrarmos mais depressa noutro mundo que adivinho esplêndido. Matarmo-nos não por horror à vida, mas por amor à vida. A outra vida maior. E não só por isso -: para ver a tua alma na sua completa nudez.
 
RAUL BRANDÃO, in"MEMÓRIAS", Tomo II
  
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Talvez um pouco idealizada, mas sem dúvida uma comovente declaração de amor. Vale a pena ler as Memórias, e não só, deste filho da cidade do Porto.

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