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Amar o PORTO +

"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

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"Não há futuro sem memória. Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos." Manuel António Pina

Palácio do Freixo

17.11.07, amaroporto2

 

 

A famosa moradia foi construída nos meados do séc. XVIII por um rico cónego da família nobre dos Cernaches, Jerónimo de Távora, senhor de grandes riquezas na província de Entre Douro e Minho e herdeiro de outro abastadíssimo eclesiástico, o cónego D. João Freire, deão da Sé do Porto, cujos bens haviam sido acumulados por uma dama da família dos Cernaches, de nome D. Micaela Freire. Essa fortuna constituía uma espécie de condado, abrangendo propriedades em Coja, Macieira, Gaia e Baião. Nicilau Nasoni, recém-vindo de Itália, foi incumbido de gisar o plano do sumptuoso palácio que o referido cónego se propôs implantar naquele belo sítio, defronte do cristalino meandro do rio Douro. Os jardins, talhados à maneira italiana, foram repartidos por arquitectónicas alamedas de balaústres e povoados de esculturas alegóricas. Ao longo do rio corria um varandim (bastante desmantelado pela grande cheia de 1909), que oferecia, e ainda oferece, seus encantos panorâmicos.

No interior, o palácio recebeu sumptuosos lavores, em estuques, pinturas a fresco, espelhos e lustres. (O mais valioso dos lustres, segundo se diz, está num museu suíço). As armas dos Távoras ostentavam-se em diversas partes do edifício. Sobrevindo o processo judiciário do regicídio (1758), o palácio, como tantos outros da poderosa estirpe, foi visitado pelas alçadas do Marquês, incumbidas de picar todos os sinais heráldicos dos fidalgos condenados. Em fins do séc. XVIII, o palácio, bastante decadente, passou para os viscondes de Azurara, que, por seu turno, o venderam a um negociante, um tal António Afonso, que o mandou restaurar e ao mesmo tempo estabeleceu, ao lado, uma fábrica de sabão. Era o mofino precedente. Nos nossos dias outro grande industrial adquiriu o edifício e os jardins, instalando nestes a fábrica de moagem, à qual recentemente acrescentou um enorme silo, de 45 metros de altura. Assim se tornou irreparável a asfixia desta tão interessante obra de arquitectura da melhor época barroca. A visita ao palácio confrange. Mesmo assim, vale a pena fazê-la. A autorização, um pouco custosa, terá de obter-se na própria fábrica.

... a nota dominante é a do abandono. As esculturas decorativas, de calcário, que se encontram ainda, nas suas penhas, na fachada voltada ao N., têm todo o ar de figuras petrificadas pelo zumbido industrial e o tapume de chapas enferrujadas que as envolve.

in "Guia de Portugal" [Entre Douro e Minho I - Douro Litoral],

Fundação Calouste Gulbenkian, 1964

 

  

 

De linhas aristocráticas, o Palácio é, do ponto de vista arquitectónico, um edifício único na cidade e um dos mais belos legados de Nicolau Nasoni, e do barroco, ao Porto.

Entra-se no edifício pelo lado ou pelas traseiras, o que era habitual no século XVIII. A fachada principal dá para o rio Douro, com uma vista soberba. Nasoni tirou partido do desnivelamento do terreno e ligou o palácio ao rio através de jardins com socalcos.

Foi classificado monumento nacional, em 1910. Apesar disso, foi vítima da industrialização (até de uma fábrica de carvão, a poente) da zona em que se encontra e votado ao abandono por parte das autoridades que tinham o dever de demarcar a zona de protecção a um edifício desta importância.

Terminada a exposição de Salvador Dalí, o Palácio vai ser entregue, juntamente com a antiga Fábrica das Moagens Harmonia, ao Grupo Pestana para mais uma Pousada de Portugal, a abrir em 2009.

Entre 2000 e 2003, foram feitas as obras de recuperação do Palácio (que custaram 10 milhões de euros), sob a responsabilidade dos arquitectos Fernando Távora (que veio a falecer em 2005) e de seu filho José Bernardo Távora. Na altura, chegou a estar prevista a criação, nesta zona, dum pólo cultural que incluía a construção do Pavilhão das Descobertas, um passeio pedonal junto ao rio, ateliês e exposições para diferentes públicos.

O edifício estava num estado lastimável, devido a anos de abandono e aos estragos feitos pelos sucessivos proprietários. Fez-se o possível por manter o que havia de original, sem pretender refazer ou tentar copiar, mantendo a memória de quem aqui esteve. Uma equipa de restauro de Tomar trabalhou intensamente, durante quase um ano, na recuperação de parte dos traços de Nasoni. Facilmente se encontram espaços vazios e rabiscados nos tectos e nas paredes trabalhados e pintados, deixados como se encontravam.

Houve a grande preocupação de usar materiais das artes tradicionais e não utilizar betão. Nalguns espaços, teve de ser recriado o que havia sido destruído, como as janelas (onde agora se vê o granito, mas que estavam tapadas de madeira) e a escada interior teve de ser refeita porque tinha desaparecido o segundo patamar.

 

    

 

As obras para a reconversão do Freixo em pousada começam em Dezembro e deverão durar até 2009. Terá 78 quartos (situados na Fábrica das Moagens), piscinas interior e exterior, spa, vários salões e um restaurante gourmet com especialidades gastronómicas do Norte. A pousada terá a classificação de Histórica, com quartos a partir de 180 €. Só os jardins deverão ficar abertos ao público, sem prejudicar o normal funcionamento da pousada.
Mais uma vez, vemos os poderes públicos (nacionais e municipais) a demitirem-se das suas obrigações em relação ao património histórico, que é parte da nossa memória, deixando cair o projecto da criação do pólo cultural nesta zona e preferindo transferir para o sector privado aquilo que deveria ser acessível a todos os cidadãos.
Como escrevi antes, fui dizer adeus ao Palácio do Freixo. A partir de agora, aquele “monumento nacional” só poderá ser apreciado por gente rica.
Preferia vê-lo, de novo, abandonado? Claro que não! Mas será que não havia outra alternativa? A exposição do Dalí foi um verdadeiro sucesso, em número de visitantes. Então, o que parece é que, quando as coisas são bem feitas, resultam; que a cultura pode, pelo menos, pagar os custos da sua manutenção.
Por este caminho, o povo português nunca mais vai “sair da cepa torta”. Não pode gostar daquilo que não lhe dão oportunidade de conhecer.  
“Numa entrevista ao Público (6 de Dezembro de 1998), conduzida por João Bénard Da Costa, conta Manoel de Oliveira: ‘O José Régio dizia que a vida sem a arte seria um martírio, seria uma coisa horrível. A arte é que dá sentido de beleza à vida. É uma espécie de sublimação das coisas’.” [*]
 
PENA QUE OS POLÍTICOS NÃO PENSEM ASSIM!!!  
 
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[*] Manuel Poppe, in “Memórias, José Régio e Outros Escritores, co-edição Quasi Edições, Círculo Católico d’Operários de Vila de Conde, 2001, pág. 212

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