Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Jardim da Cordoaria
O Liceu funcionava num casarão medonho, imenso, à velha e lôbrega Rua de S. Bento da Vitória. Em frente, era a Cadeia da Relação. À entrada da rua havia prédios sujos e bodegas escuras, donde vinha a exalação infecta dos comes-e-bebes para gente pobre. Pelos passeios, e extravasando, circulava uma população miserável mas animada, que se descompunha, que ria, que praguejava ou dizia chalaças, e tinha ao ar livre o mesmo violento à-vontade que dentro de casa.
Certos dias, tudo isto oprimia o coração de Lelito de uma tristeza que o acabrunhava, e lhe parecia irremediável. Na realidade, só o ajudava a sentir ainda mais fundo a sua própria melancolia.

A Cadeia da Relação. À esquerda fica a Rua de S. Bento da Vitória
Nas imediações, uma ou duas casas de má fama seduziam os estudantes mais velhos. Mulheres pintadas, com um particular desleixo de maneiras, penduravam os seios moles do peitoril das janelas. Um dos Pessegueiros já lá fora, a uma dessas casas. Gostara, voltara. E até trazia na carteira uma fotografia que furtara do quarto de uma das tais deusas. Uma vez, convidara Lelito a acompanhá-lo. Mas Lelito não acedera. Embora uma curiosidade malsã e o antegosto do prazer ignorado o atraíssem a tais antros, aquelas mulheres grosseiramente sedutoras, que ouvira, na rua, soltar gargalhadas roucas e provocar os transeuntes com meneios libertinos, só lhe inspiravam desgosto, espanto e quase medo. Preferia ir até à Cordoaria. Aí havia cisnes brancos deslizando no lago de águas verdes; chorões que se abriam em folhagens pendentes, flutuantes, baloiçando à brisa como longas tranças; e altas árvores escuras em volta ou por trás dos bancos, fazendo abóbada lá em cima.
Ao fundo da calçada, também havia uma espécie de miradoiro para o casaria da cidade, os bairros de à beira rio e os longes de Vila Nova de Gaia. Era bem mais alegre, sobretudo quando o sol enchia o céu e doirava todo o burgo. E uma vez Lelito metera por becos e ladeiras, descera uns lanços de escadinhas escusas, e fora quase até à Foz (julgara ele) pela margem do Douro. Outra vez, como os outros, arriscara-se até às ruas centrais da cidade. Mas andara tão assustado, com tal pavor de encontrar alguém de Azurara ou do colégio, que lhe nem prestara a deambulação… Só por desafio e desespero a repetira depois várias vezes. Pouco ou nenhum prazer lhe tinham dado estas novas escapadas. Simplesmente provara a si próprio que era capaz de afrontar um medo humilhante, rebelar-se contra o jugo… Pelo mesmo sentimento resolvera acompanhar, qualquer dia, o Pessegueiro à tal casa de vício. Até ao presente, - faltara-lhe coragem.
[…]
- Pedi licença para sair hoje às cinco horas, logo que chegue do Liceu. Encontro-me com a minha noiva no Café Rocha. Sabe onde é…, à esquina da Praça. Se puder dar-se ao incómodo de passar por lá…
- Decerto…, com muito gosto – repetiu Lelito, um pouco mais senhor de si; mas compreendendo que falavam ambos, agora, num tom de quase afectado mundanismo. – Não poderei demorar-me muito tempo. O comboio sai qualquer coisa antes da seis, é preciso tomar o eléctrico para a Boavista… Mas sempre nos poderemos encontrar uns minutos.
José Régio, A Velha Casa I
Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Não gosto muito de Centros Comerciais, não só porque lhe chamam Shoppings, mas também porque têm gente a mais e ar a menos.
No entanto, quase aqui ao pé de casa, na zona da Rotunda da Boavista, fica o Centro Comercial Cidade do Porto, mais pequeno e com menos gente, aonde gosto de ir ao Cinema; às vezes, comer ao Chiado e, agora, passar um bocado agradável, rodeada de livros, na LEITURA, books & living. Só não gosto do "books & living". Estamos em Portugal, porra!!! E a velha LEITURA da Rua de Ceuta, referência importante da cidade, não precisa destes modernismos.

Calmamente sentada, a tomar um chá de jasmim, posso ver com vagar as muitas obras, de grande qualidade, que têm sobre a cidade do Porto; escolher um livro, ou um CD, para comprar ou ler um jornal. Tem espaços para as crianças, com mobiliário adequado.
Vale a pena ir até lá, se gostam de livros, claro!

Uma das iniciativas deste espaço, é o chamado CLube de Leitores que realiza, na terceira quarta-feira de cada mês, sessões para análise de obras previamente escolhidas e com a presença de um comentador especializado. No passado dia 20, foi a vez de "Magalhães, o homem e o seu feito", de Stefan Zweig. O comentador foi Gonçalo Cadilhe que "seguiu os passos de Magalhães", numa viagem que inspirou um livro e um programa na RTP2, em preparação.
Uma boa maneira de passar uma noite, uma vez por mês.

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
Porque nem na morte vou perder o meu sentido de humor
nem a minha ironia.
MIOPIA
Sempre que vejo o que os meus olhos não queriam ver (mas que sabem ser verdade) É sempre este doer. Como se a minha sensibilidade estivesse toda no olhar e ver.
Como se a minha revelação apenas viesse inteira, para além da fronteira do que os meus olhos dão.
Sempre que vejo... Porque me dói assim? Porque se desprende em mim essa mágoa-essência de surpresa retardada?
A minha consciência está míope e cansada.
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Fernanda Botelho nasceu no Porto, em 1926, filha de uma família aristocrática com dum sentido de austeridade com o qual iria romper. Quis entrar em Direito, mas tal foi-lhe proibido pela mãe, que conseguiu levá-la a um "curso de mulheres", em Coimbra. Depois de ter iniciado os estudos, considerou que o meio coimbrão era demasiado conservador e muda-se para Lisboa, onde terminou o curso de Filologia Clássica. Ficcionista, tradutora e poetisa foi, nos anos 50, co-fundadora da revista Távola Redonda, onde publicou as suas primeiras poesias.
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Fernanda Botelho morreu,
no passado dia 11 de Dezembro,
aos 81 1nos
Assustador é o sofrimento, não a morte.
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Pois é! Fernanda Botelho morreu. E o país anda demasiado distraído para dar ao acontecimento o relevo que merece. A menos que seja eu a distraída… Claro que as pessoas morrem, mais tarde ou mais cedo. Mas um escritor, um artista, pode ser eterno através da sua obra. É obrigação do país e, sobretudo, da cidade do Porto, onde nasceu, aproveitar o momento do seu desaparecimento físico para divulgar a sua obra. Mais do que elogios ou condecorações, um escritor deseja, penso eu, que leiam as suas palavras, quantas vezes fruto de grande sofrimento.
Lembro aqui o principal da sua obra. Para que todos a possamos conhecer. Esta é a humilde homenagem que presto à grande mulher que soube ser.
Obra Poética:
Coordenadas Líricas (1951)
Obra de ficção:
O Enigma das Sete Alíneas (1956)
O Ângulo Raso (1957)
Calendário Privado (1958)
A Gata e a Fábula (1960)
Xerazade e os Outros (1964)
Terra sem Música (1969)
Lourenço é nome de Jogral (1971)
Esta Noite Sonhei com Brueghel (1987)
Festa em Casa de Flores (1990)
Dramaticamente Vestida de Negro (1994)
As Contadoras de Histórias (1998)
Gritos da Minha Dança (2003)
Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007
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Já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho, à desmoralização, à infâmia (...), à desgraça, à penúria, para produzir um rico?
Almeida Garrett
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Praça Almeida Garrett Estátua na Praça Humberto Delgado
João Baptista da Silva Leitão de Almeida nasceu no Porto, em 4 de Fevereiro de 1799. O pai, António Bernardo da Silva, era selador da Alfândega da cidade, e grande proprietário nos Açores, e a mãe, D. Ana Augusta de Almeida Leitão, descendia duma família de comerciantes minhotos, que tinha feito fortuna no Brasil. Foi buscar o apelido Garrett a uma avó paterna, D. Antónia Margarida Garrett, de origem irlandesa.
A cidade do Porto gozava, por esse tempo, de grande prestígio mundial, fundamentalmente por causa da sua importante actividade comercial, mas era já notório o desenvolvimento industrial que estava em curso. Apesar disso e de alguns toques de modernismo que se notavam já, a cidade continuava uma terra de cariz medieval, profundamente provinciana nas pessoas e nos costumes. Por isso, Garrett a comparou mais tarde a "um grande aldeão".
Passou os primeiros anos nas quintas do Castelo e do Sardão (Vila Nova de Gaia) e, por causa das invasões francesas, foi com a família para os Açores, procurando a segurança nas suas propriedades da Ilha Terceira. Foi aí que recebeu não só a iniciação religiosa, mas também a literária, sobretudo de seu tio, o bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família, tornando-se, sob o seu pseudónimo Sílvio, poeta da Arcádia. Chegou mesmo a tomar ordens menores, pensando seguir a vida eclesiástica, e foi numa pequena igreja açoriana que conquistou o seu primeiro triunfo como orador.
Sem vocação, acabou por se matricular na Universidade de Coimbra, em 1816, onde se deixou contagiar pelas ideias do Liberalismo. Terminado o curso em 1820, trabalhou como oficial na Secretaria dos Negócios do Reino e apaixonou-se por uma menina de 14 anos, Luísa Midosi, com quem casou em 1821.
Surpreendido, em 1823, pela Vilafrancada, procura asilo na Inglaterra, onde lê Shakespeare, Walter Scott e Byron. Foi a seguir para França, onde conseguira emprego como correspondente comercial numa firma, escreve o poema “Camões” (1825) – considerado introdutor do Romantismo em Portugal – e “D. Branca” (1826).
Depois da outorga da Carta Constitucional, por D. Pedro IV, regressa a Portugal e funda os jornais O Português e O Cronista, defensores da causa liberal. Não tarda a ser preso, na Cadeia do Limoeiro, e o miguelismo triunfante atira-o, de novo, para o exílio inglês em 1828. No ano seguinte, edita a “Lírica de João Mínimo” e, em 1830, publica “Portugal na Balança da Europa”.
Parte então para a Terceira, donde regressará ao Porto, em 9 de Julho de 1932, integrado no Corpo de Voluntários Académicos que fazia parte dos 7500 “Bravos do Mindelo” que, na véspera haviam desembarcado nas praias de Arnosa de Pamplido. Segue-se o Cerco do Porto, que Garrett aproveita para esboçar o “O Arco de Sant’Ana”. Foram enormes os sacrifícios feitos pelos heróicos soldados do Corpo Académico (Garrett era o nº 72), durante os meses que durou o Cerco. Não é exagero dizer que, a este Corpo, ficou a cidade do Porto a dever uma grande parte da vitória.
Entre 1834 e 1836 representa, em Bruxelas, o novo governo liberal, aproveitando a estadia para estudar a poesia alemã. Já em Lisboa, separa-se de Luísa e relaciona-se com Adelaide Deville (que morre jovem, deixando-lhe uma filha) e, depois, com a viscondessa da Luz, D. Rosa de Montufar.
Passos Manuel encarrega-o, entretanto, de fundar um teatro nacional – o futuro D. Maria II -, bem como um repertório de peças portuguesas. Garrett cumpre estas missões. Edita, entre 1838/43, “Um Auto de Gil Vicente”, “D. Filipa de Vilhena”, “O Alfageme de Santarém” e o justamente célebre “Frei Luís de Sousa”.
Morre em 9 de Dezembro de 1854 (fez ontem 153 anos), mas antes publica, entre outras obras, “Viagens na Minha Terra”, o “Romanceiro” e o seu melhor volume de poemas “Folhas Caídas”.
A cidade do Porto deu o nome deste seu filho à Praça fronteira à Estação de S. Bento, um largo, situado na zona histórica da cidade, digno do homem que viveu o Cerco do Porto e ajudou a suster as tropas miguelistas.
Ali bem perto, na Praça do General Humberto Delgado e em frente à Câmara Municipal do Porto, ergue-se a estátua do poeta, da autoria de Barata Feyo.
No entanto, em vida, nunca lhe deu a honra de o eleger deputado pela cidade. Ele, que escreveu: "Se na nossa cidade há muito quem troque o B por V, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia e a liberdade pela servidão.", morreu com a ferida de não ter sido eleito pela sua terra, que amava e que servira.
Camilo Castelo Branco avança uma explicação para esta "ingratidão" da cidade do Porto. Dizia que os eleitores "assentaram os pés de cima sobre os refegos da barriga e regougaram: Chamar ao Porto 'grande aldeão'! Pois o meu voto é que não apanhas."
Também na Terceira encontrei memória de Almeida Garrett em Angra do Heroísmo (Angra passou a chamar-se "do Heroísmo" por sugestão e empenho de Garrett) e na Praia da Vitória.

Angra do Heroísmo
Praia da Vitória