OLIVEIRA E CAMILO
Nunca a entrega à Arte vem sozinha. Quando assisti, nos idos de 1978 (Dezembro), em Florença, à estreia mundial de “O Amor de Perdição”, fervia-me dentro o deslumbramento camilianista e a memória da jóia chamada “Aniki-Bobó”. Estava preparado para a adaptação (um risco) duma obra excepcional da Literatura e de gostar ou condenar. Depois, era emocionante a homenagem a Mestre Manoel de Oliveira. Aquilo que aconteceu foi o seguinte: vi uma obra-prima transformar-se noutra obra-prima, agora recriada e revelada por um realizador de génio e por actores exemplares, que conseguiam transmitir poesia e tragédia. E vi uma sala repleta aplaudir de pé. Na Itália -mundo maravilhoso-, tem sabor especial. E deixa uma impressão indelével.
Manuel Poppe
Serralves e Oliveira
1. Está patente, na Casa de Serralves, até 2 de Novembro, uma exposição de homenagem a Manoel de Oliveira, É oportuna e justa - o grande realizador completará 100 anos, a 12 de Dezembro próximo. Merece todas as homenagens, não porque se aproxime o centenário em vida - e, ironicamente, sublinha que não é culpa sua e agradece ao destino - mas sim pela obra única que ergueu. De facto, Manoel de Oliveira não tem idade. Desde os anos em que convivemos mais de perto em Itália (e não esqueçam que "O amor de perdição" teve estreia mundial em Florença, Dezembro de 1978) até hoje, habituei-me a admirar e ouvir um homem jovem, lúcido e um criador a quem as coisas acontecem naturalmente - como se viessem ter com ele. Homem simples e franco, a sua sensibilidade complexa e o seu amor à beleza atraíram o respeito e admiração. Todos sabemos que a Itália - a crítica de cinema italiana -, na Bienal de Veneza de 1976, ajudou a que se abrissem as portas do reconhecimento internacional, desde aí sempre crescente. Manoel de Oliveira nunca esqueceu. E agora mesmo, a Bienal de Veneza lhe confirmou a estima, recebendo, com entusiasmo e carinho, três curtas metragens inéditas, tendo estado uma delas, "Do visível ao invisível", na inauguração do festival.
2. A obra de Oliveira impôs-se e, hoje, emparceira com a dos maiores realizadores de sempre. O cinema português, quando estudado, deverá referir-se ao antes e ao depois de "Douro, faina fluvial".
Leitor, é bom admirar.
Manuel Poppe, in "O Outro Lado",
Jornal de Notícias, 7.Set.2008
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